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Criatividade08/02/2020 | 09h00Atualizada em 08/02/2020 | 09h00

Vendedor ensina que superar dificuldades é como equilibrar uma bandeja em meio ao trânsito

João César Santos Mariano, radicado há 10 anos em Caxias do Sul, ganha a vida comercializando água na rua Visconde de Pelotas

Vendedor ensina que superar dificuldades é como equilibrar uma bandeja em meio ao trânsito Marcelo Casagrande/Agencia RBS
"Se a pessoa não tiver dinheiro posso dar a garrafa de graça. O importante é que ela não saia daqui com sede" brinca João, que fez aniversário dia 7 de fevereiro, completando 33 anos. Foto: Marcelo Casagrande / Agencia RBS

Debaixo do sol escaldante do verão de Caxias do Sul, um garçom transita entre os carros que desaceleram diante do semáforo da esquina das ruas Visconde de Pelotas e Duque de Caxias. Não é miragem, nem cena de filme. É a vida como ela é. Segurando uma bandeja, o porto-alegrense João César Santos Mariano, radicado em Caxias há cerca de 10 anos, vende água gelada, com e sem gás. Cada garrafa custa R$ 3, mas se o cliente só tiver R$ 2, ele não perde a venda.

– Se a pessoa não tiver dinheiro posso dar a garrafa de graça. O importante é que ela não saia daqui com sede – brinca João, que fez aniversário ontem, completando 33 anos.

João teve a mesma sacada de negócios do carioca Rick Chesther, que viu sua vida ser transformada quando decidiu vender água. Depois de ser apadrinhado pelo empresário Flávio Augusto da Silva, autor do livro Geração de Valor, fundador da empresa Wise Up e dono do time de futebol Orlando City, Rick Chesther virou palestrante e escritor. Tudo começou quando ele decidiu gravar um vídeo onde ensinava:

“Está desempregado no Rio de Janeiro? Então faz o seguinte: arruma R$ 10 emprestado, vai para a Central do Brasil amanhã e compra uma mala de água mineral e meio saco de gelo. Pega tudo e vai para Copacabana, cedo. Lá, você vende uma água a R$ 4 ou R$ 5. Vamos considerar que você venda tudo a R$ 4 e beba duas. São dez águas, R$ 40 reais. Você investiu R$ 10, são 300% de lucro”.

João não demonstra ter a estratégia de Chesther. No entanto, ele é a prova real do que Chesther ensina. A média de venda nesta primeira semana de trabalho de João é de 60 garrafas por dia. Numa conta básica, a R$ 2 por garrafa, João tem tido um rendimento bruto de cerca de R$ 120 por dia. Estimando-se que ela trabalhe apenas 20 dias no mês, seu resultado bruto poderá ser de R$ 2,4 mil. 

Supondo que o custo de cada garrafa seja de R$ 0,90, o investimento mensal dele para a compra de água será de pouco mais de R$ 1 mil. Como ele não tem custo com gelo, porque ganha de dois a três sacos de 10 kg da empresa Nevasca, o lucro mensal dele poder vir a ser de R$ 1,4 mil. É cerca de duas vezes a mais do que ele recebia no último emprego.

– Ele me procurou para comprar gelo e nem conheço a história dele. Mas resolvi dar uma força, porque nunca sabemos o dia de amanhã. E sei que Deus está vendo – revela Robson Pedro de Oliveira, 29, da Nevasca.

SUPERAR CRISES

João aprendeu a superar crises. Filho de pais separados, nasceu em Porto Alegre e cresceu em Torres, no litoral norte. Da mesma forma que João tem aprendido que o gelo é consumido rapidamente quando exposto ao sol, apesar de estar dentro de uma caixa térmica, entendeu que precisava sair da margem, que o aproximava da vida em meio às drogas e à criminalidade.

– Vim pra Caxias, quando tinhas uns 20 e poucos anos e fui morar na rua – conta.

Por volta de 2014, João foi parar na mão de Vanda Ferreira Vittorazzi, atual diretora de proteção social especial na Fundação de Assistência Social (FAS) e que trabalhou durante 15 anos no Albergue Carlos Miguel.

– Ele tinha passado por uma cirurgia, por conta de uns tiros que ele tomou, em um contexto delicado em que ele vivia. Como estava passando por dificuldades, conseguimos acolhimento para ele. Eu creio que o acolhimento e o cuidado fizeram toda a diferença na vida dele – defende Vanda, 55.

João reconhece o cuidado, e a julgar pela emoção com que fala de Vanda, entendeu oportunidade como um gesto de amor.

– A Vanda fez de tudo por mim, não sei nem como agradecer.

CONTAR HISTÓRIAS

João quer terminar o ensino médio e sonha contar histórias como um jornalista.

– Eu acho que levo jeito, porque gosto muito de conversar com as pessoas – diverte-se.

Sonhar é um exercício que poucos se dão ao direito hoje em dia. Porque sonhar pressupõe estar disposto a cair e a levantar. Mesmo quando passava os dias lavando carros na garagem de Marilda Rizzon e Rudimar Antonio de Aguiar, que na época ficava no Bairro Cidade Nova, e hoje localiza-se na mesma esquina onde ele vende águas, João se permitia sonhar alto.

–  Às vezes, ele  tava ali sentado, cansado de tanto lavar carro e me dizia: “Marilda, um dia quero tomar banho num banheiro bom, dormir numa cama boa, morando dentro de um apartamento bem limpo”. E olha só, no aniversário dele, nos convidou para comer um churrasco no apartamento que ele e a esposa alugaram no centro – elogia Marilda, 55.

Pois é, João, que vida hein?

– Pra quem chegou aqui na cidade, morou na rua, passou pelo albergue e hoje mora no centro, casado com uma mulher muito especial, acho que é uma evolução, né?

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