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+Serra06/01/2020 | 09h38Atualizada em 30/01/2020 | 11h47

Para onde vai o Brasil liberal de Paulo Guedes

Especialistas e economistas fazem uma avaliação sobre os rumos do país sob a direção do superministro

Para onde vai o Brasil liberal de Paulo Guedes Ministério da Economia/Divulgação
Paulo Guedes é mais do que um garoto de Chicago Foto: Ministério da Economia / Divulgação

Paulo Guedes é mais do que um garoto de Chicago. Essa alcunha se deve a quem estudou e foi doutrinado na Universidade de Chicago, como é o caso de Guedes, que na tua temporada por lá teve como mestre Milton Friedman, uma espécie de pai intelectual dos Chicago Boys. Além de um fruto de Chicago, Guedes é o supermisnistro de Jair Bolsonaro, presidente eleito em 2018. Superministro porque fundiu várias pastas em uma só: ministérios da Fazenda, do Planejamento e da Indústria e Comércio Exterior. E tudo isso virou o Ministério da Economia, que centraliza o direcionamento da polítrica macroeconômica brasileira.

Afora algumas bolas-fora de Paulo Guedes, principalmente quando procurou justificar falas, também atravessadas do presidente Bolsonaro, sempre que o ministro tratou de economia, o mercado reagiu bem. Aliás, esse "mercado" é mais do que um personagem sem face, é o principal citado nos últimos anos, principalmente em um país que agora trocou a bandeira do mastro da embarcação para uma flâmula liberal. Para 2020, a expectativa de Guedes é crescer o dobro de 2019.

— O PIB crescerá no mínimo 2% ano que vem. Essa é uma estimativa conservadora da nossa parte. Acreditamos que a economia crescerá pelo menos o dobro deste ano. Se 2019 fechar com 1,2%, crescerá 2,4% em 2020 — explicou o ministro, em uma coletiva à imprensa, em meados de dezembro, em que fez avaliações do ano passado e prognósticos para o próximo período.

Desde que assumiu como superministro, Guedes tem lutado pela implementação de diversas reformas, que segundo ele, são a expectativa de sobrevida para o Brasil. E, sem elas, é bancarrota. Na mesma coletiva, Guedes disse que a guinada mais radical, nesse viés mais liberal, passava por três torres. Uma delas, já foi derrubada, em 2019. As outras duas, são o desafio para 2020 e, que se implementadas, vão asfaltar o caminho para o crescimento moderado, mas equilibrado e sólido como especulam os atores e agentes do mercado.

— A primeira torre que derrubamos foi a da Previdência Social, que era uma fábrica de privilégios insustentáveis — explicou, reforçando que a economia será de R$ 800 bilhões para a União nos próximos dez anos.

Assim que estancou essa sangria desatada, Guedes ganhou impulso e aceitação do mercado, tanto interno, quanto internacional, para acelerar ainda mais a economia brasileira, desde que, na sua visão, derrube mais duas torres.

— Nossa segunda grande torre são os gastos da dívida pública. Vamos "despedalar" os bancos públicos, mandando de volta (para o Tesouro) a dívida que eles têm com a União. Desaceleramos o endividamento com bancos públicos devolvendo dinheiro. O secretário Salim Mattar está privatizando. Assim estamos desacelerando o endividamento em forma de neve — ironizou.

E por fim, nessa analogia das três torres, vem o funcionalismo.

— A terceira torre é o gasto com o funcionalismo. Nos últimos 15 ou 16 anos, os servidores tiveram, em média, reajustes de 50% acima da inflação, com aposentadorias generosas. Temos um shutdown (congelamento de serviços públicos) à brasileira. Em vez de parar de pagar todo mundo, é só não dar aumento. Está lá no Pacto Federativo — explicou.

O tal do Pacto Federativo, a que se refere o ministro, é parte integrante do Pacote Mais Brasil, enviado ao Senado, ainda novembro de 2019.  Dentro desse pacotaço estão as propostas de 3 novas PECs: a dos Fundos, a Emergencial e a do Pacto Federativo. Na avaliação da equipe econômica, além dessas propostas, está a reforma tributária, que já é uma lenda em Brasília (Gernamo Rigotto que o diga), e a reforma administrativa, que deve tocar em um ponto central, a estabilidade nos cargos. 

Os desafios são grandes, mas os prognósticos são otimistas, pelo menos é o que se vê na avaliação a seguir, de economistas e especialistas que, a convite do +Serra, fizeram suas avaliações de como será o Brasil em 2020.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL, 23/12/2019. Gustavo Bertotti, economistaprofessor do Centro de Negócios da FSG. Head de Renda Variável da Messem Investimentos. (Porthus Junior/Agência RBS)
"2020 será um ano bastante desafiador. Mas acredito que as empresas estão melhor preparadas, porque aprenderam com a última crise", defende Gustavo BertottiFoto: Porthus Junior / Agencia RBS

Prognósticos para 2020

Terminar um ano bem é um estímulo psicológico para inciar bem o seguinte. O clima de otimismo, no entanto, não deve ser confundido com euforia.

— O ano de 2019 termina muito melhor do que começou, certamente. No entanto, temos ainda 12,5 milhões de pessoas desempregadas, e esse deve ser um dos pontos de preocupação para 2020, que já desponta em um cenário de  pequena retomada da indústria — observa Gustavo Bertotti, professor do Centro de Negócios da FSG e Head de Renda Variável da Messem Investimentos.

O Brasil fecha 2019 com queda na produção industrial de -0,73%. No entanto, no terceiro trimestre de 2019 os dados já mostravam uma aceleração, ainda pequena, mas significativa. Tanto é que o PIB do terceiro trimestre conquistou crescimento de 0,6%, frente ao segundo trimestre de 2019. Em relação ao ano passado é um crescimento de 1,2%.

— A população brasileira sabe, que a melhor distribuição de renda é a geração de emprego. A realização de um pai de família é ter emprego, para gerar um bem-estar para a sua família e seus filhos terem acesso à educação — defende Joarez José Piccinini, diretor Superintendente de Serviços Financeiros do Banco Randon.

Tanto Bertotti quanto Piccinini são homens do mercado, são atores desse ambiente que é mais real do que muitos idealizam. Os dois concederam essa entrevista, em dias separados, com os olhos cravados nos dados no Relatório de Mercado Focus, divulgado Banco Central (BC). A cada segunda-feira, são atualizados índices conforme as expectativas vão sendo alcançadas ou não. 

Segundo o Focus, o Brasil em 2020, terá como previsão de PIB, 2,30 %;  a taxa Selic deve permanecer em 4,50%; o Índice de Preços ao Consumidor, que regula os preços, deve ser menor do que em 2019 (que foi de 4,04%), sendo projetado a 3,61% para 2020. O câmbio, que foi o vilão de parte da opinião pública, que fechou 2019 em R$ 4,10 tem previsão de manter-se estável e bater no final de 2020 com leve queda, R$ 4,08.

— Sou muito otimista, de uma maneira cautelosa, mas o Brasil está no caminho certo. Tem percalsos, discussões e embates, claro, mas faz parte, porque vivemos em uma democracia. Eu não associo essas mudanças a uma pessoa de confiança do presidente, eu associo a uma visão de governo, e a sociedade brasileira tem de ter esse entendimento — avalia Piccinini.

Bertotti também está otimista.

— 2020 será um ano bastante desafiador. Mas acredito que as empresas estão melhor preparadas, porque aprenderam com a última crise. E 2020, não será como em outros anos, que a economia só girava depois do Carnaval. Esse ano já começamos aquecidos desde o dia 6. Será um ano crucial para poder pensar e projetar o crescimento a médio e longo prazo. Não podemos mais ter um voo de galinha, que voa um pouco e cai. Precisamos ter a economia crescendo de forma sustentável e sólida, como deverá ser em 2020 — acredita.

PORTOALEGRE-R-SBR- 07.08.2016Marcel Van Hattem, deputado estadual do PP/RSFOTÓGRAFO: TADEU VILANI, AGÊNCIA RBS, 07/08/2016
"Provamos para o mundo que é possível reduzir o gasto público, conter o déficit e passar uma imagem de credibilidade", diz Marcel Van HattemFoto: Tadeu Vilani / Agencia RBS

Marcel Van Hattem: reformas à vista 

Um dos políticos gaúchos mais alinhado com a filosofia econômica de Paulo Guedes é o cientista político Marcel Van Hattem, o garoto de Dois Irmãos. Van Hattem é  deputado federal pelo Novo, e até se colocou à disposição para ser o presidente da Câmara dos Deputados em 2019.

— O Brasil avançou muito, em 2019, com a Reforma da Previdência, mesmo que ela não tenha sido aquela que o ministro Paulo Guedes propôs de um R$ 1 trilhão, mas pelo menos foi o dobro do que propunha o presidente anterior, Michel Temer. Provamos para o mundo que é possível reduzir o gasto público, conter o déficit e passar uma imagem de credibilidade — defende Van Hattem.

É um consenso de que as reformas deram ao país não apenas uma sobrevida para 2019, mas encaminham o país para uma nova perspectiva.

— Penso que estamos passando por um período de reformas estruturais que haviam sido proteladas, mas lentamente estão acontecendo no Brasil. Dessa forma, abre-se leque que certamente contribuirá não só para a solução das nossas dificuldades fiscais, mas servirá também de combustível da retomada econômica — avalia Astor Schmidt, diretor de Economia, Finanças e Estatísticas da Câmara de Indústria, Comércio e Serviços de Caxias do Sul.

Gustavo Bertotti, Head de Renda Variável da Messem Investimentos, também acena para 2020 como sendo o ano de tratar da reforma tributária.

— Para 2020, o que é fundamental é a reforma tributária. Só as tratativas desse tema já fizeram com que o mercado absorvesse muito bem a ideia. E também, deve ser focado na racionalidade dos gastos públicos com a reforma administrativa. 

E haverá impacto direto a partir da reforma tributária?

— Não esperamos que ocorra uma redução da carga tributária com a reforma, não ao menos, em um primeiro momento. E a razão é simples. Porque o gasto público ainda é muito alto, então não tem como haver redução de impostos. Agora, se houver uma simplificação da carga tributária e da arrecadação, para que as se seja criada uma segurança jurídica, já é um começo — pontua Piccinini, diretor do Banco Randon.

 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL (19/12/2019)Diretor superintendente de Serviços Financeiros do banco Randon, Joarez J. Piccinini para pauta do +Serra sobre as perspectivas da economia caxiense para 2020. 9Antonio Valiente/Agência RBS)
"A população brasileira sabe, que a melhor distribuição de renda é a geração de emprego" defende Joarez José PiccininiFoto: Antonio Valiente / Agencia RBS

Perspectivas para o cenário caxiense

A cidade vai sofrer do efeito cascata da aceleração da economia brasileira, avaliam os economistas.

— O que teremos em Caxias, assim como no Brasil todo, é que teremos não só a redução do desemprego, mas um aumento da renda. Porque, na medida em que a atividade econômica se desenvolve, não necessariamente o emprego tem de aumentar para a renda ser maior. A pessoa que está empregada vai ganhar mais porque vai ter um variável que contribui para isso —defende Piccinini.

Mais uma vez é a psiquê reagindo aos estímulos da economia, que na visão de Piccinini, vai estimular o consumo, mas de uma maneira mais responsável.

— Na medida em que temos a expectativa de um crescimento econômico, de cenário futuro mais estável e previsível, as pessoas se sentem mais confiantes para fazer aquisições de bens de consumo parcelado, ou imóveis e bens duráveis. Isso é um efeito psicológico, os agentes econômicos atuam dessa forma. Saímos de um ciclo negativo e entramos em um ciclo virtuoso — atesta.

Antes da colheita, no entanto, Gustavo Bertotti, Head de Renda Variável da Messem Investimentos, entende que Caxias tem um desafio muito grande pela frente.

— Em Caxias, temos um grande desafio que é o industrial. Todas as empresas vem trabalhando bem a redução de custo variável e o endividamento. Acho que a economia de Caxias vai passar por essa retomada, por causa de um mercado mais liberal.

Para Bertortti que trabalha focado no mercado de ações, um país com bolsa forte é um país forte.

— É assim nos Estados Unidos. Se a empresa tem um juro de 14% ao ano, não vai para a bolsa e não poderá pegar empréstimo em um banco porque vai onerar o orçamento. Enquanto que o processo de abertura de capitais, que eu creio vai crescer muito em 2020, tu toma um recurso diretamente do mercado, sem juros, e por isso não tem endividamento — explica.

É um setor promissor, entende Bertotti, porque nos últimos meses mostrou crescimento de vários setores, sobretudo da indústria.

— Tivemos exemplos de empresas que subiram 30% em três meses. A gente vê a retomada da indústria nesse cenário. Uma Gerdau, que nos últimos tempos andava lateralizada, no ano subiu 25%. Uma Randon, 40% a mais. Marcopolo, que crescia 2% ao ano, só em dezembro, cresceu 14%. Mostra uma retomada dessas empresas na bolsa, justamente por uma melhor perspectiva para 2020.

Astor Schmidt diretor corporativo da Randon.
"Penso que estamos passando por um período de reformas estruturais que haviam sido proteladas, mas lentamente estão acontecendo no Brasil", diz Astor SchmidtFoto: Roni Rigon / Agencia RBS

Brasil na cartilha liberal

Depois de ensaios de uma social democracia, e na visão de alguns extremados, de um pé brasileiro no comunismo, o país hoje tem uma abordagem econômica liberal. Pelo menos é dessa forma que enxerga Joarez José Piccinini, diretor Superintendente de Serviços Financeiros do Banco Randon.

— Eu não uso o termo esquerda e direita. Eu uso os termos: "uma abordagem econômica de governo mais liberal, ou mais estadista". Se a gente pegar, por exemplo, a Venezuela e a China. Eles são países de direita ou de esquerda? A abordagem econômica de cada um deles é totalmente diferente, agora o regime deles não é uma democracia. Mas nós, goste ou não, temos uma maior independência dos poderes e temos um regime democrático aqui no Brasil.

De uma forma bastante didática, Liberalismo Econômico é um conjunto de princípios políticos e econômicos que pregam a liberdade e a não intervenção do Estado na economia.

— A política onde o estado tentou desempenhar o papel de indutor do desenvolvimento econômico não teve sucesso. Temos um estado que custa muito caro. O custo da máquina pública brasileira consolidada é de 49% do PIB. É absurdamente elevada. Temos uma carga tributária das corporações em 35% e da pessoa física de 27,5%. Esse modelo não se sustentou. Felizmente, para o Brasil, tivemos essa guinada, a partir de 2017, para o liberalismo econômico. A mudança de governo, com a entrada de Jair Bolsonaro, trouxe um reforço dessa política, porque o Guedes é extremamente liberal — explica Piccinini.

Para o cientista político e liberal de carteirinha, Van Hattem, liberalismo pressupõe colocar as pessoas à frente do governo.

— Percebe-se que a linha de atuação do Ministério da Economia coloca as pessoas na frente do governo. Vivemos um momento em que o governo está querendo sair e deixar as pessoas empreenderem com a maior liberdade possível, porque é assim que surge o desenvolvimento econômico.

O país na rota do crescimento

Como fazer para seguir crescendo? Para os analistas não hão há mágica e não se deve mais incentivar o crescimento ou o poder de compra dos consumidores falseando a economia, como já ocorreu em outros momentos, com a redução do IPI para a linha branca ou automóveis.

— Os bancos aumentaram a predisposição para emprestar dinheiro. Então, temos um sistema de alavancagem de financiamento do consumo, seja de bens duráveis ou não, que começa a funcionar. O Brasil tem espaço para crescer o endividamento das pessoas, sem que isso seja ruim. E esse não é um processo artificial, não está sendo alavancado por incentivos fiscais ou subsídios. É um movimento natural, do crescimento econômico que traz esse tipo de comportamento — explica Piccinini, do Banco da Randon.

Um dos setores promissores, há muito em baixa no Brasil, é a construção civil.

— E não serão imóveis de luxo, mas para a classe C. Empresas como a Direcional, que faz imóveis estilo "minha casa, minha vida", cresceu 110% em 2019. Até então, era um setor bem nebuloso que começa a ter uma retomada — revela Bertotti, a partir da valorização da empresa na bolsa de valores.

Além disso, uma nova avaliação, dessa vez mais favorável, do "risco Brasil", é consenso entre os especialistas.

— O spread do CDS (Credit Default Swap) do Brasil ficou abaixo dos 100 pontos (98,25) sendo o menor patamar desde 8 de novembro 2010. O rating brasileiro continua BB- mas a Standard Poor's emitiu nota positiva em relação a perspectiva de uma nova classificação do grau de risco — explica Bertotti.

O CDS é um termômetro de confiança dos investidores utilizado principalmente em economias emergentes (indica o risco de calote de um país).

— Esse é um dado positivo de extrema importância para 2020 principalmente em relação ao otimismo dos investidores estrangeiros. Esse dado passa muito pela melhora fiscal e da economia brasileira.

Enquanto isso, na Argentina o clima é de instabilidade, incerteza e é preciso cautela. A relevância é muito grande dos hermanos, porque eles já foram o melhor parceiro comercial do Brasil e de Caxias, e hoje são o terceiro, caindo para a quarta posição.

— A expectativa em relação a Argentina não é nada positiva. As medidas que estão sendo tomadas lá, na minha visão, infelizmente, não não permitem ter muito otimismo. Infelizmente, eles estão com um modelo lá que já foi testado e não deu certo.

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