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Economia08/01/2020 | 06h00

Agricultura da Serra sofre com os extremos do clima

 Chuva excessiva em outubro e novembro de 2019 e tempo quente e seco nesse início de 2020 poderão afetar algumas culturas em cerca de 40%

Agricultura da Serra sofre com os extremos do clima Embrapa/Divulgação
Em Paraí, as lavouras de milho tem sofrido com a seca deste início de 2020 Foto: Embrapa / Divulgação

Não há segredo para manter uma lavoura. É trabalhar a terra com fertilidade e, através de uma boa semeadura, em boa quantidade de chuva e sol, prepara-se para a colheita farta. Mas e quando chove demais na hora errada e não chove nada quando a terra arde com o calor excessivo? Essa é a triste realidade do estado. O grande volume de chuva nos meses de outubro e novembro afetou a polinização das ameixeiras e macieiras, e atrapalhou o pegamento (transformação da flor em fruto) dos parreirais e pessegueiros.

– Em outubro e novembro choveu o dobro da média. As ameixeiras e as macieiras são altamente dependentes da polinização, que é feita pelas abelhas, mas com chuva elas não trabalham. E agora, nessa época, tem chovido pouco, em algumas regiões quase nada. A insolação tem queimado até as flores das hortênsias e o milho e a uva tem murchado – explica o engenheiro agrônomo Enio Ângelo Todeschini, que é assistente regional de Fruticultura do escritório regional da Emater/RS, que fica em Caxias do Sul.

Conforme avaliação do órgão, a seca está causando diversos prejuízos, que associados ao excesso de chuva no final de 2019 têm causado vários impactos em diversas fruticulturas. A Emater, no entanto, prefere não estimar os prejuízos, porque entende que qualquer alteração seja em mais incidência de chuva neste ano, ou até um maior tempo de estiagem, pode afetar a colheita de forma considerável.

– A cultura mais atingida aqui na região é a uva, tendo maturação forçada apresenta bagas e cachos menores. Além disso, tem o pêssego que apresenta ciclo médio e tardio com calibre menor e maturação acelerada dificultando a comercialização. A maçã tem tido pouca produção de frutos e com calibre pequeno. Tem áreas de milho também atingidas. E com relação ao leite, tem dois fatores importantes, esse período é de aumento de produção por conta da entrada nas pastagens de verão que não está ocorrendo e ainda tem um redução de 10 a 15% por conta do calor – revela a engenheira agrônoma Sandra Maria Dalmina, gerente regional da Emater.

“A irrigação é a maior garantia para não perdemos a produção no futuro”

Valmir Susin, secretário da Agricultura, Pecuária e Abastecimento, da prefeitura de Caxias do Sul, tem conversado com produtores e comerciantes que trabalham na Ceasa Serra, e diz que a uva é o fruto mais prejudicado.

– O maior problema é a parreira. Porque tem outras culturas em que os produtores fazem irrigação e cultivam dentro de estufas que não devem ter prejuízos. Agora, tem produtores de tomate preocupados, porque amadureceu muito rápido e tudo de uma vez só, e agora não tem florescido mais. A ameixa tem tido uma produção bem baixa, enquanto que o alface tem sofrido nesses últimos dias com o sol quente e tem queimado as folhas – conta.

Para o secretário, a melhor forma de garantir uma boa produtividade, e com qualidade, é a irrigação.

– Tenho falado com muitos produtores e penso que temos de nos preparar com a irrigação. Temos o bom exemplo de Israel, lá eles produzem muito com pouca água em uma região de deserto. Então, não precisamos inventar a roda, mas a irrigação é a maior garantia para não perdemos a produção no futuro – argumenta Valmir Susin.

Parreiral da propriedade de Bruno Comachio sofre com a falta de chuvas no início de 2020. Propriedade fica na Linha Primeira Secção. Comunidade São Valentim de Santa Tereza.
Parreirais estão sendo afetados na propriedade de Bruno Comachio, na Comunidade São Valentim de Santa TerezaFoto: Bruno Comachio / Divulgação

Colheita da uva na região deverá ser 40%menor do que em 2019

O agricultor Bruno Comachio, que tem seis hectares de uva plantadas em Linha Primeira Secção, Comunidade São Valentim de Santa Tereza, no interior de Bento Gonçalves, está bastante preocupado. Ele estima que deverá perder até 40% da produção, caso permaneça o clima seco e o calor excessivo.

– Na virada do ano até choveu aqui, mas foi pouco. As folhas ainda estão muito secas. E a minha preocupação é de que além da uva não ter crescido como precisava, esse calor forte está secando a parreira, e isso vai nos prejudicar para os próximos anos – resigna-se Bruno Comachio, 23 anos.

O produtor explica ainda, que a seca faz o cacho da uva perder peso e, por isso, não apenas a colheita, mas a qualidade do fruto está prejudicada.

– Quando não tinha de chover, choveu muito. E agora, que precisamos da chuva, ela não vem – reclama.

A região vitícola mais afetada pela falta de chuva é o Vale Aurora, em Bento Gonçalves.

– Já estimávamos uma perda de 20% por causa dos problemas com a má brotação, por causa do excesso de chuvas na florada. E agora, mais perdas, por causa da seca. Então, acho que se pode falar em torno de 30%, no geral. No entanto, tem regiões que choveu mais, e em outras quase nada, por isso é ainda cedo determinar as perdas do setor – avalia Cedenir Postal, presidente da Comissão Interestadual da Uva e do Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Bento Gonçalves.

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