"No futuro, toda empresa será uma empresa de tecnologia" , afirma especialista em inteligência artificial - Economia - Pioneiro

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Entrevista19/10/2019 | 06h30Atualizada em 23/10/2019 | 13h28

"No futuro, toda empresa será uma empresa de tecnologia" , afirma especialista em inteligência artificial

Em Caxias, pesquisador falou sobre os potenciais da tecnologia para serviços públicos

"No futuro, toda empresa será uma empresa de tecnologia" , afirma especialista em inteligência artificial Diego Bocussi/Divulgação
Nilton Silva é cocriador de Victor, inteligência artificial que atua no Supremo Tribunal Federal (STF) Foto: Diego Bocussi / Divulgação
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Professor e pesquisador sênior em inteligência artificial da Universidade de Brasília (UNB), Nilton Silva, palestrou em Caxias do Sul na última quinta-feira (17) no evento Health Talks, promovido pelo movimento Conecta Saúde. 

No currículo, Nilton tem parte na criação do robô Victor, inteligência artificial utilizada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) que atua na organização de processos extraordinários ingressados no STF.

Ao Pioneiro, Nilton falou da possível aplicação  da tecnologia em diferentes áreas. Confira a entrevista: 

Pioneiro: A funcionalidade do "Victor" pode ser aplicada em outras áreas?

Nilton Silva: O Victor atua na triagem de processos jurídicos. O que ele faz exatamente: pega textos, lê esse texto, interpreta e consegue gerir o encaminhamento. É aplicável a qualquer área que necessite desse tipo de procedimento. 

Mas como funciona a adaptação para essas outras áreas?

Num sistema de saúde, por exemplo, no processo de regulação, o robô pode dizer se o paciente vai precisar ou não da internação com base numa ficha médica. Toda análise que é feita em cima de dados, é possível treinar uma inteligência artificial a fazer o que um ser humano faz. No caso do Victor, estamos alcançando efetividade igual ou melhor do que o ser humano. Não porque a máquina seja melhor que o ser humano, mas é que as pessoas, num fluxo do dia a dia, estão passíveis a erros, desatenção. Ser humano comete erros, máquinas também. Aí surge a pergunta, se é igual ao ser humano ou pouco melhor, por que substituir? Enquanto o ser humano leva, por exemplo, entre 20 e 30 minutos para analisar um processo, quando substitui por um robô, dependendo da escala de poder computacional que você coloca estamos falando em centenas, às vezes milhares de processos por minuto. A escala mudando você desafoga o judiciário, considerando que o judiciário brasileiro tem um fluxo caótico, onde chegam 100 mil novos processos no STF todo ano, enquanto as cortes supremas dos EUA e da Alemanha, por exemplo, recebem cerca de 80 casos por ano.

A cultura pop fomentou uma ideia de mundo distópico surgido com a expansão do uso da inteligência artificial. Qual é a visão duma perspectiva científica?

É quase impossível nas minhas palestras alguém não tocar nesse assunto (risos). O que acontece com o mundo? A quantidade de filhos das gerações mais recentes é muito menor que as mais antigas. A quantidade de pessoas no mundo vai diminuir. Acontece que a demanda por produtividade continua. A saída é fazer as pessoas ficarem mais produtivas. Num cenário que a gente tem 10 médicos atendendo "Xs" pacientes, em algum momento talvez não tenhamos essa quantidade de médicos. Temos de fazer aquele médico ser mais produtivo, não posso dizer como outras áreas podem contribuir nisso, mas na minha área eu diria que seria munir esse profissional de tecnologia, que apoie ele a tomar decisão, transforme dados em informação. No STF, por exemplo, com o Victor a gente desonera as pessoas de um trabalho maçante para que ela use todas as suas potencialidades cognitivas para fazer tarefas mais complexas.

Por que a inteligência artificial ainda não foi aderida em grande escala?

A I.A. é nova não só no Brasil, mas no mundo. Do ponto de vista teórico é bem antiga, tem resquícios de a humanidade querer aplicar desde a antiguidade. Com o advento da computação, houve afã em criar inteligências artificiais genéricas e isso caiu em descrédito. Nos últimos anos tivemos barateamento computacional. Os modelos matemáticos já existiam antes da década de 1980, o que não tínhamos era fartura de informação e barateamento do poder computacional. Isso gerou um ambiente fértil para desenvolver tecnologia. Não é uma tecnologia muito barata, mas não é exageradamente cara. O problema que temos é falta de mão de obra qualificada. Existe um déficit mundial de engenheiros de I.A.. Sou coordenador de um grupo de pesquisa em Brasília e tenho dificuldade muito grande de reter alunos. Alunos que sequer se formaram já são muito assediados por empresas desenvolvendo I.A.. Existe uma máxima de que um futuro muito próximo toda empresa será uma empresa de tecnologia. 

Como incremento a serviços públicos, é possível a inteligência artificial ganhar mais espaço?

Não tenho nenhuma dúvida. Onde se aplica esse tipo de tecnologia tem um retorno de investimento muito rápido. Na área da saúde, os resultados mais proeminentes são na área de imagens. Tem tecnologias muito interessantes no diagnóstico de imagens médicas. Identificação com alta precisão em lesões de pele, inclusive câncer, pulmão. Há uma empresa inglesa que é basicamente um consultório virtual. Você entra, é entrevistado por uma inteligência artificial, é diagnosticado, às vezes medicado ou encaminhado a um especialista. Isso tudo, às vezes, sem nenhum ser humano por perto.

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