"Na Serra, se o cara errar é um miserável", observa Bruno Tusset, que palestra sábado, em Caxias - Economia - Pioneiro

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Entrevista13/05/2019 | 17h15Atualizada em 13/05/2019 | 17h15

"Na Serra, se o cara errar é um miserável", observa Bruno Tusset, que palestra sábado, em Caxias

Sócio da Saipos e idealizador da Devorando, empresa que foi vendida para a iFood, entende que o erro é uma oportunidade disfarçada

"Na Serra, se o cara errar é um miserável", observa Bruno Tusset, que palestra sábado, em Caxias divulgação/Divulgação
Bruno Tusset (primeiro à direita) com os sócios da Saipos (à partir da esquerda) Eric Alves, Anderson Onzi, Kenner Gring Foto: divulgação / Divulgação

Há duas formas de se encarar um erro. Pune-se e cobre-se a vergonha com uma pá de cal, ou enxerga-se o erro como uma incrível oportunidade, porque, no final de contas, é só mais uma etapa do processo. O farroupilhense Bruno Tusset, 32 anos, vê o erro como uma "aprendizado escondido", como revela na entrevista a seguir.

 Tusset é um dos sócios a fundar, em 2017, a Saipos, com experiência em sistemas de gestão para bares e restaurantes, sobretudo do mercado Rio-São Paulo, que atende a mais de 2 mil clientes. A empresa é baseada no Tecnosinos - Parque Tecnológico São Leopoldo, o tal Vale do Silício do Rio Grande do Sul.

Tusset, graduado em administração pela UCS, virá a Caxias do Sul por conta do Mind7 - Startup, que ocorre sábado e domingo, dias 18 e 19, nos Pavilhões da Festa da Uva. O tema da palestra é O segredo do fracasso, e antes que alguém questione o que um guri de 30 e poucos anos entende sobre a relação entre fracasso e sucesso, só um dado, antes de seguirmos para a entrevista. 

Erros clássicos e outros mais extravagantes conduziram Tusset à derrocada antes mesmo da idealização do projeto Devorando, fundada em 2013 para atender a demanda de pedido de comida online. Depois de aprender com o fracasso, em 2016, a Devorando foi vendida para a iFood, considerada a maior plataforma de entrega online do país, com mais de 6,2 milhões de pedidos mensais, e 5,1 milhões de usuários ativos.

Confira a seguir a entrevista feita por telefone, a partir de São Leopoldo.

Qual será o enfoque da palestra?
A palestra tem relação com a falha, com o erro. A cultura do brasileiro é diferente da cultura do americano, assim como a do gaúcho é diferente da brasileira. A cultura americana, de certa forma, valoriza o erro, porque traz um aprendizado, seja para a tua vida ou para o teu negócio. Mas o brasileiro não gosta disso. E se pensar no contexto da Serra é pior ainda. Se o cara errar, é um miserável.

Na Serra é pior?
Até onde vivi na Serra, tinha ainda muito enraizada a cultura "quem tu é?", "de onde tu veio?", "de que família tu é?". A família representa um status, mais importante do que o aprendizado, o conhecimento ou a capacidade de desenvolvimento de um produto ou negócio. Nos últimos anos, até por causa da nova geração, isso tem mudado.

E então, qual é o segredo do fracasso?
O erro é um aprendizado escondido. Brinco nas palestras que os erros nos ensinam a não precisar repeti-los. Antes do Devorando, quebrei uma empresa que tinha com uns amigos. O sucesso que veio a seguir é fruto de muito trabalho. E muito trabalho te conduz a muitos acertos, mas também a muitos erros. É natural fracassar, principalmente em uma startup. Mas é preciso perceber a falha, mensurar resultados, consertar e ter resiliência.

Por que se tem a tendência a abandonar os projetos, em vez de consertá-los?
Aí vai muito da forma como tu encara o que aconteceu. Tem o lado de resiliência e da maturidade, que são muito importantes. Em business, tu precisa ser maduro o suficiente para lidar com o fracasso. Para mim, muitas vezes, o erro é uma oportunidade disfarçada. Quantas tentativas ocorreram para que se pudesse fazer uma cadeira? A maioria das inovações que se têm hoje são como commodities. E depois que algo se torna uma commoditie, ninguém mais lembra que teve um processo de erros e acertos para isso acontecer.

Empreender é uma aventura?
Empreender é uma batalha, uma montanha russa. Temos muitos desapontamentos no meio do caminho, para alguns momentos de glória, mas por trás de tudo isso tem muito empenho.

O que fazer depois de surgir uma ideia na cabeça?
A maioria das pessoas tem uma ideia e divide ela com a mãe, o pai, o irmã, a tia e todos falam que é muito boa. Pessoas muito próximas têm a tendência a concordar quando se apresenta uma ideia. É preciso validá-la, mas com testes palpáveis. Respostas como "eu acho", "eu acredito" ou "eu creio" não funcionam. Um bom exemplo de validação é entrevistar 200 pessoas anônimas e mais de 30% delas dizerem que essa ideia faz sentido. Mas isso também não é uma certeza, porque a maior validação é a do mercado.

A Devorando é um bom exemplo de validação do mercado?
Demoramos a entender o real valor que entregávamos na Devorando. O diferencial que tínhamos para atrair o iFood foi o mercado quem validou. A ideia do início do projeto não tem nada a ver com o final. Chegamos a um nível de maturidade do produto que foi baseado em muitas falhas. Os resultados das pesquisas e, da interpretação dos números, nos fez ver o que funcionava ou não. Mas para se ter um resultado sempre melhor é preciso continuar testando e validando as hipóteses ao longo do tempo, não só no início.

Boas equipes ajudam a evitar erros e fracassos?
O que difere o momento atual do que acontecia há 10 ou 15 anos é que se tem muito conhecimento compartilhado na internet. Encontram-se muitas soluções em uma busca refinada. Acredito que equipes complementares, com pessoas de diferentes áreas como as de negócios, marketing e tecnologia, podem solucionar juntas os erros da melhor forma. Mas também é possível sentar com um amigo e beber uma cerveja, e nesse papo informal surgiu a solução para um problema. É a tal eureca do momento, que pode surgir em um papo aleatório com alguém.

 
 
 

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