Após quase três anos no vermelho, economia de Caxias do Sul volta a respirar - Economia - Pioneiro

Conjuntura01/11/2017 | 07h00Atualizada em 01/11/2017 | 08h21

Após quase três anos no vermelho, economia de Caxias do Sul volta a respirar

Desempenho econômico do município volta ter índices positivos no acumulado dos 12 meses

Após quase três anos no vermelho, economia de Caxias do Sul volta a respirar Marcelo Casagrande/Marcelo Casagrande
Setor matalmecânico, que representa a matriz econômica de Caxias, foi o que mais sentiu a crise econômica. Para economista, as empresas tiveram que aprender a andar com as próprias pernas Foto: Marcelo Casagrande / Marcelo Casagrande

Os últimos três anos foram os mais difíceis da história da economia caxiense. Depois da crise que atingiu em cheio a principal matriz econômica da cidade, o setor metalmecânico, Caxias do Sul sai do buraco, mas ainda cambaleando.  Foram 39 meses de queda vertiginosa. O fundo do poço foi alcançado em janeiro de 2016. O índice negativo ultrapassou a casa dos 18% no acumulado dos 12 meses. De lá pra cá, começou o lento caminho de volta. Em setembro, finalmente, alcançou a borda e voltou a respirar: alta de 1,1%. A previsão dos economistas, porém, é de uma recuperação frágil e vulnerável. Isso significa que ela pode voltar ao vermelho.

O poder de compra do caxiense caiu e a inadimplência subiu. Em 2014, o PIB da cidade era R$ 22,3 bilhões — per capita de R$ 47.587. A previsão para 2017 é de R$ 26 bilhões — ou R$ 53.788 per capita , considerando a estimativa populacional de 2016, de 483.377.  Alta de 13%. A inflação do período passa dos 26%.  Em setembro, 77,5  mil caxienses estavam endividados. 

O "inabalável" setor metalmecânico, que só tinha sentido na pele a passageira crise mundial de 2009, viu mais de 500 empresas fecharem as portas e um exército de trabalhadores ser demitido. Em 2015, o setor desligou, em média, 2 mil trabalhadores por mês. De 2013 a 2017, foram fechados 21 mil postos de trabalho. Os empresários da área viram o faturamento despencar pela metade. Em 2013, chegou a  R$ 24 bilhões. Em 2017, a previsão  (otimista) é de chegar a R$ R$ 10 bilhões. Comércio e serviços foram os últimos a sentir a crise. E estão sendo os últimos a sentir a retomada. Em setembro, o comércio fechou em 3% e os serviços - 1.

Em 2013, mais de 183 mil pessoas atuavam no mercado caxiense com carteira assinada. Hoje, o número é de 159,5 mil. São 23,6 mil postos a menos. Nestes dados não estão incluídos os profissionais que estão se formando e entrando no mercado. Não há dados oficiais sobre o assunto. Também não há estimativas, já que muita gente saiu da cidade por não conseguir voltar ao mercado de trabalho.

O Centro de Integração Empresa Escola (Ciee) de Caxias informa que conta com mais de 24 mil cadastros de pessoas procurando o primeiro emprego. 

Qual a saída?

O que Caxias do Sul aprendeu com a maior crise de sua história? Os empresários estão voltando a andar com suas próprias pernas, diz a doutora em economia Maria Carolina Gullo. Ou seja, perceberam que o modelo esgotou e que não dá mais para depender somente das medidas de incentivo anunciadas pelo governo federal.

— Estão agindo por conta própria — destaca.

Para o economista Astor Milton Schmitt, a crise serviu para dar um sopro nas brasas que estavam apagadas.

 — Nossas deficiências ficaram evidentes.

Os empresários também foram obrigados a sair da zona de conforto e a quebrar paradigmas. Já é possível perceber um movimento no meio empresarial de buscar novos nichos de mercado e tecnologias atualizadas. Também há empresas, mesmo em número ainda reduzido, que estão diversificando sua produção.

— Se a vocação de Caxias é a indústria, temos de buscar opções dentro deste setor e fornecer para outras áreas. Se o nosso entrave é a logística, precisamos vislumbrar alternativas para ganhar de outra forma. Não dá mais para ficar esperando por milagres. Está na hora de agir —alerta Maria Carolina. 

Começar o processo de reindustrialização é uma das saídas. Com o atual valor do dólar (R$ 3,24), não está mais valendo a pena produzir na China e somente embalar o produto no Brasil. É uma esperança de que a produção interna retome e de que a capacidade ociosa de 28% seja reduzida. 

A economista acredita neste movimento:

— O caminho é longo e árduo. Mas é preciso começar!

"A crise foi uma lição", diz presidente do Simecs

Se para muitos a crise foi a culpada pelo fim do negócio ou do emprego, para outros, ela representou uma lição. Ficou claro que a cidade não pode depender somente de um setor para crescer e desenvolver. Atualmente, 80% da indústria ainda são representados pelo automotivo pesado, que depende de renovações de frotas e linhas de financiamento federais. Nos últimos 12 meses, este segmento ainda acumula queda de 6%. 

Segundo o presidente do Sindicato das Indústrias Metalúrgicas, Mecânicas e de Material Elétrico de Caxias do Sul (Simecs), Reomar Slaviero, são poucos clientes e, se eles param de comprar, a produção também para.

— Depender de poucas empresas é um perigo. O risco é muito alto — declara.

 No final de 2010 e início de 2011, o setor metalmecânico deu um salto e cresceu 30,8%. Em janeiro de 2016, a queda chegou a 23,9%.

— Crescemos muito. Por causa disso, o tombo do setor foi maior e mais sentido. 

Assim como Maria Carolina, ele também acredita que o caminho será longo e espinhoso. Slaviero prevê uma possível recuperação somente em cinco anos. Sendo otimista.

 — Ainda é muito cedo para falar em crescimento. Precisamos ser otimistas, mas não tanto —revela.

A prova está na queda do setor em setembro, que recuou 3%. A esperança está nas exportações. Em setembro, elas recuaram 13% em relação a agosto. Mas, no acumulado dos últimos 12 meses, cresceram 0,8%.



 CAXIAS DO SUL, RS, BRASIL  (16/12/2014) Comércio de Natal 2014. Movimento discreto de consumidores na rua e nas lojas, há uma semana do Natal. Comércio Natalino. (Roni Rigon/Pioneiro)
Comércio precisou aprender a fazer mais com menos. "É preciso muito mais do que simplesmente vender. É preciso fazer gestão", diz presidente do CDL CaxiasFoto: Roni Rigon / Agencia RBS

"Comércio não é apenas vender"

O comércio e serviços representam 51% do PIB de Caxias do Sul. Foram os  últimos a sentir a maior crise enfrentada por Caxias e ainda estão sentindo os reflexos. Em setembro, o comércio fechou em queda de 7,1% em relação a agosto. No acumulado dos últimos 12 meses, está 3% no azul. Para o presidente da Câmara de Dirigentes Lojistas de Caxias (CDL), Ivonei Pioner,  a crise está deixando um aprendizado:

— Aprendemos que o comércio é muito mais que vender. É preciso ter gestão e mecanismos de controle.

Quem não criou pontes, informa, não conseguiu se movimentar e não sobreviveu à crise. O perfil do consumidor também mudou. As necessidades são outras. 

— É preciso se reinventar e se profissionalizar  urgentemente. Muitos lojistas entenderam o recado.

O futuro presidente da CIC, Ivanir Gasperin, destaca que é preciso valorizar o que é produzido aqui. Ele diz que o grande desafio do setor está nas novas tecnologias.

 — Quanto maior o sistema, menor o salário. Como vamos fechar esta conta?

 

Veja também

Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros