"O que deixou Caxias rica, não vai continuar deixando ela rica", diz coordenador do TecnoUCS - Economia - Pioneiro

Entrevista21/07/2017 | 13h06Atualizada em 21/07/2017 | 13h06

"O que deixou Caxias rica, não vai continuar deixando ela rica", diz coordenador do TecnoUCS

Enor Tonolli Junior considera a inteligência artificial uma das principais tecnologias disruptivas que impactará empresas e pessoas

"O que deixou Caxias rica, não vai continuar deixando ela rica", diz coordenador do TecnoUCS Porthus Junior/Agencia RBS
Para Tonolli Junior, aquilo que deu certo nos últimos 50 anos, pode não dar certo nos próximos anos Foto: Porthus Junior / Agencia RBS

Coordenador executivo do Parque de Ciência, Tecnologia e Inovação da Universidade de Caxias do Sul (TecnoUCS), Enor Tonolli Junior estuda há quase uma década as tecnologias disruptivas, aquelas tendências que impactam o cotidiano de pessoas e empresas. O engenheiro mecânico destaca a inteligência artificial como um dos principais motores das transformações que virão pela frente. E ressalta que a substituição de pessoas por robôs em muitas atividades rotineiras não é cena de filme de ficção científica, já é algo real.

A automação está cada vez mais presente nas empresas e deverá atingir um novo patamar. Um quadro que impacta diretamente uma cidade como Caxias do Sul, com economia fortemente baseada na indústria. Neste sentido, Tonolli Junior acredita que o setor produtivo local necessitará se renovar e explorar novas alternativas. Aliás, não só o setor produtivo. Diferentes segmentos acabam sendo impactados pelas mudanças tecnológicas, que, por tabela, provocam alterações de diversos comportamentos.

Pioneiro: O que são tecnologias disruptivas?

Enor Tonolli Junior: Tecnologia disruptiva é toda tecnologia que altera substancialmente ou radicalmente a forma como nos relacionamos com o mundo e o acesso que temos a essas tecnologias. Por exemplo: antigamente, tinha o vinil, depois foi para o CD, e a mudança de tecnologia gerou uma mudança de comportamento. Depois, fomos para o Spotify, para a nuvem. E isso transforma de novo a forma como a gente se relaciona com o mundo. O mesmo quando saímos da válvula para o transistor, que permitiu que tivéssemos no bolso algo poderoso em termos de capacidade computacional. Então, a tecnologia disruptiva altera dramaticamente a forma como nos relacionamos com o mundo. Um exemplo atual é a inteligência artificial. Essa é uma nova tecnologia disruptiva, que não se sabe como exatamente ela vai nos afetar, mas já vem afetando substancialmente a forma como a gente se relaciona com o mundo.

Empresas como o Uber, o Airbnb e outras no ramo de serviços são frutos de ¿disrupções¿?

São empresas que vêm propondo novos modelos de negócios. A tecnologia permite que haja uma desmaterialização. Hoje, para eu chamar um carro para me deslocar, seja um táxi, Uber, Cabify ou qualquer outro, não preciso mais ter o intermediário. Isso já está desmaterializado. Outro fenômeno que a tecnologia permite é a passagem do poder das instituições (empresas e institutos) para as comunidades. O modelo disruptivo permite que, cada vez mais, as comunidades se empoderem nesse novo mundo. O Uber, por exemplo, é uma comunidade. As pessoas físicas estão resolvendo os problemas de pessoas físicas, não mais as instituições necessariamente resolvem os problemas das pessoas. A tecnologia permite que esse novo comportamento exista.

É possível dizer que a forma atual como consumimos ou acessamos os serviços está em xeque?

Existem técnicas e métodos para se entender para que lado as coisas tendem a ir. Há dois grandes direcionadores: as tecnologias e o comportamento humano. Duas grandes áreas que efetivamente nos conduzem a entender para onde as coisas estão indo. Não existe segmento que não será impactado. Nessa transformação, não existe segmento salvo, não existe segmento que não vá ser mexido. O importante é entender para que lado esses movimentos acontecem, que tecnologias estão aparecendo em cada um desses segmentos e como é o comportamento das pessoas.

Como a inteligência artificial deve impactar o mercado de trabalho? O desemprego crescerá ainda mais?

O que vai acontecer é uma reacomodação desse cenário. Na primeira revolução industrial, quando fizeram o tear mecânico, quantos tecelões perderam o emprego em pouco espaço de tempo? E hoje não se fala mais disso. Hoje é comum ter uma máquina que faça isso. Vai acontecer a mesma coisa nessa quarta revolução industrial que estamos vivendo agora. Vai haver uma reacomodação dos empregos que vão desaparecer e uma adaptação para as profissões que ainda não existem. Um estudo nos Estados Unidos diz que as crianças que estão no ensino fundamental hoje, aproximadamente 65% dos empregos que elas vão trabalhar nem sequer foram criados. Muitas pessoas que fazem hoje algum tipo de atividade que vai deixar de existir vão ter que se entender nesse novo mundo e saber, dentro das suas habilidades e competências, o que elas podem fazer.

Quais atividades e profissões o senhor vê como mais ameaçadas?

Não dá para mirar um ou dois segmentos. Tudo o que for repetível vai desaparecer. Qualquer atividade que uma máquina possa executar de forma repetitiva, isso é claro e definido que vai desaparecer. Pode ser um montador numa linha de montagem de uma fábrica, pode ser um contador que faça rotinas tradicionais, pode ser um advogado que faz aquelas coisas tradicionais, uma companhia de seguros que faça algo de maneira rotineira. Tudo isso que hoje, em tese, uma pessoa faz, mas que é rotineiro, ¿automatizável¿, vai (ser impactado). Não existe um segmento. Já aquilo que depender de criatividade, inteligência, percepção e que não for repetitivo tende a permanecer vivo por muito tempo.

Caxias do Sul é uma cidade com indústria forte e que, consequentemente, tem uma série de funções que poderão ser impactadas pela inteligência artificial. Que perspectiva há para esse segmento?

De uma forma geral, aquilo que deixou Caxias rica, não vai continuar deixando ela rica. O que a gente viu acontecer nos últimos 50 anos, não vai dar certo nos próximos 10 e talvez nem nos próximos cinco. Só que nós temos uma expertise muito forte de trabalho, de tecnologia em alguns segmentos. Como usar esse conhecimento e essa base instalada para fazer outras coisas com maior valor agregado? Não é abandonar o que se faz hoje, mas aproveitar aquilo que é feito hoje e que ainda gera resultado já orientado para outro segmento ou outro tipo de produto com valor agregado. Por exemplo, hoje produzimos ônibus, carretas etc. Temos um parque fabril muito poderoso, mas produzimos algo que é commodity, de baixo valor agregado. E se essa mesma base metalmecânica que temos instalada produzisse produtos inteligentes? Um braço robótico, um carro autônomo ou componentes para essa indústria que está chegando agora. Nós podemos continuar com toda nossa expertise, mas com focos orientados para outros tipos de produtos e segmentos. Obviamente isso vai provocar uma mudança de competências, de habilidades internas nas organizações. Em qualquer segmento, todos serão impactados se não começarem a pensar em investir 1%, 5% ou 10% do seu tempo, do seu faturamento, do seu volume financeiro e intelectual para essas outras atividades. É bem provável que, quando for preciso fazer isso, não haverá mais tempo hábil para se fazer.

 

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