Garrafões de vinho estão com os dias contados na Serra - Economia - Pioneiro

Setor vinícola25/06/2017 | 13h30Atualizada em 25/06/2017 | 13h30

Garrafões de vinho estão com os dias contados na Serra

Um dos ícones do vinho na Serra Gaúcha está cedendo espaço para as embalagens de plástico

Garrafões de vinho estão com os dias contados na Serra Diogo Sallaberry / Agência RBS/Agência RBS
Pablo Perini, da Vinícola Perini, diz que bag oferece vantagens em redução de volume e peso na logística Foto: Diogo Sallaberry / Agência RBS / Agência RBS

Um ícone do vinho da Serra Gaúcha está saindo de cena. Os tradicionais garrafões de vidro estão, aos poucos, dando espaço às garrafas, aos litros pet e às novas embalagens bag in box. Em 2004, os garrafões representavam 10,2% do engarrafamento do vinho. Em 2016, esse percentual caiu pela metade, ou 5,3%. Ainda são quase 10 milhões de litros nos garrafões, mas já chegou aos 25 milhões há 12 anos.

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O diretor de Relações Institucionais do Ibravin, Carlos Paviani, acha que o garrafão ainda vai durar pelo menos 15 anos, mesmo em quantidade menor. Mas admite:

– A correria da vida nos empurra para a praticidade. No entanto, a tradição desse símbolo do vinho na Serra é muito forte, e ele só será extinto na troca de gerações – afirma.

A família tradicional, informa Paviani, ainda vai consumir vinho de garrafão. A tradição está atrelada a uma forma de economizar com a embalagem, diz ele. Grandes vinícolas da Serra, no entanto, já abandonaram esse ícone. É o caso da Cooperativa Vinícola Garibaldi e da Vinícola Perini. Outras estão reduzindo gradativamente o engarrafamento nesse tipo de recipiente.

Embalagem prática

A Vinícola Perini, de Farroupilha, aposentou totalmente os garrafões há quatro anos, cerca de uma década depois de inaugurar o sistema de embalagem bag in box. A empresa familiar, emoldurada pelos vinhedos da região do Vale Trentino, buscou a caixa de vinho com a torneirinha, atenta ao mercado internacional. 

– Somos entusiastas do vinho em si e a embalagem como plataforma de consumo. Estamos atentos ao que surge de tendência para facilitar o consumo e o uso em toda a cadeia, porque a bag oferece vantagens em redução de volume e peso na logística. Desde o transporte de caminhão até na sacola do consumidor e na praticidade de servir – ressalta o gerente de marketing da vinícola, Pablo Perini.

A migração do garrafão para a caixinha foi ousada, começou justamente pela marca de vinhos de mesa Jota Pê. Depois, vieram os vinhos finos da linha Arbo e os sucos de uva Jota Pê.

– Sabemos da importância da força icônica cultural do garrafão, mas é bom saber que a assimilação da mudança foi natural – diz Pablo.

No ano passado, 500 mil embalagens bag in box foram vendidas pela Perini, o equivalente a 1,5 milhão de litros de vinhos e sucos. Cerca de 90% deste total são de vinho. Outro reflexo da aposentadoria do garrafão foi o aumento da procura pelas embalagens do tipo magnum.

– A gente percebe que aquelas pessoas mais resistentes em abrir mão do garrafão também migraram para as garrafas que são um pouco maiores, tem 1,5 litro. Percebemos um aumento do consumo destas embalagens de vidro logo após o último garrafão vendido – explica Franco Perini, diretor comercial da vinícola. 

Mesmo com todos os investimentos nas embalagens de papelão com sistema interno de conservação a vácuo, do total de vinhos, espumantes e sucos comercializados pela vinícola, a maior parte do volume continua sendo engarrafado.

"Não acredito na extinção a curto prazo"

Há mais de meio século produzindo garrafões de vidro, a empresa Verallia, de Campo Bom, ainda produz por ano cerca de 2,5 milhões de peças. A produção já foi bem maior. Há 10 anos, a fabricação ultrapassava os 8 milhões de garrafões por ano. O gerente comercial da empresa, Alexandre Mendes de Oliveira, diz que só nos últimos dois anos a queda chegou a 20%.

Atenta a esse recuo no mercado, a Verallia já começou a desenvolver outras opções de embalagens (também em vidro) que estão sendo utilizadas pelas vinícolas. São peças mais modernas, com formato de garrafas nas capacidades de 1.000ml, 1.500ml e 2.000ml.

– Essas embalagens vêm crescendo e ocupando o espaço deixado pelos garrafões – destaca Oliveira.

O empresário não acredita no fim dos garrafões tão cedo. Segundo ele, no Rio Grande do Sul, a tradição na compra de vinhos nesses recipientes ainda é forte.

– Enquanto tiver consumidores e vinícolas envasando seus vinhos nos garrafões, a Verallia manterá no seu catálogo de produtos e continuará produzindo para atender a esta demanda – garante.

E acrescenta:

– Os volumes produzidos demostram a tendência de queda, porém não acreditamos na extinção a curto prazo.

"O vime foi minha salvação"

Saccaro empalhava garrafões no início de sua trajetória profissional Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

Seu Albino Saccaro é o fundador da empresa Saccaro Móveis, uma das mais tradicionais de Caxias do Sul, e um dos primeiros a empalhar os garrafões com vime que levavam o vinho para outros Estados. Isso foi há mais de 50 anos. Começou esse trabalho artesanal em 1962, na pequena fábrica de artefatos de vime, no bairro Ana Rech, onde hoje está situada a empresa de móveis. Trabalhou no ramo durante 15 anos e empalhou mais de um milhão de garrafões. Foi o começo de sua trajetória de sucesso nos negócios.

– O vime foi a minha salvação. Não fosse ele, teria morrido de fome – declara Saccaro.

Ele manuseava as varas com tanta destreza e perfeição, que seu trabalho tornou-se símbolo de empreendedorismo na região. O vime ganhou mais espaço e, durante muitos anos, foi a matéria-prima dos móveis da empresa que fundou. Hoje, está em extinção. Mas, na sua época, Saccaro cuidava como se fossem relíquia. Visionário nato, quando um pé de vime era cortado, ele plantava outro, pois sabia que a planta era seu ganha-pão. 

Na encruzilhada da vida, diz ele, ¿segui o caminho de chão mais batido¿. Deu certo. Quando o empalhamento de vime foi substituído pelo plástico, achou que o mundo fosse acabar. Não acabou. Pelo contrário, ampliou o mercado do vime para outros setores.

Sobre o fim do vinho em garrafões, ele é categórico: 

– Não abro mão de tomar um bom vinho de garrafão empalhado.  

Museu da Grendene terá as primeiras embalagens plásticas

Foi o avô dos irmãos Pedro e Alexandre Grendene, em viagem para a Itália na década de 1970, que voltou com a intenção de revolucionar a embalagem que se conhecia até então do garrafão de vinho na Serra. Pedro, o avô, já trabalhava com injetoras plásticas fabricando algumas peças para a indústria, quando decidiu fabricar as primeiras telas plásticas para carregar os garrafões. Foi o produto que impulsionou as vendas da empresa que, nos anos 1980, lançou outro ícone, mas no setor calçadista: as sandálias plásticas da marca Melissa. 

Luiz Antônio Moroni, diretor de gestão de negócios da Grendene, ingressou na empresa logo após a indústria abandonar a fabricação de embalagens para garrafões de vinhos.

– Quando eles lançaram a telinha para garrafão de vinho, ela substituiu um processo artesanal. Era muito mais barato e seguro, mas com o tempo virou commodity e acabou não tendo a lucratividade que tinha, porque muitas empresas compraram injetoras e começaram a fabricar também – explica Moroni.

No final da década de 1970, a Grendene já começava a fabricar solados para abastecer a indústria de calçados do Vale dos Sinos para, em seguida, criar a coleção de sandálias que a identifica até hoje. De acordo com o diretor de gestão de negócios, a empresa pretende construir um museu com os itens históricos que se tornaram marcantes armazenados ao longo dos anos.

– É um projeto embrionário, ainda estamos vendo o local, mas temos desde as primeiras embalagens de garrafões comercializadas ao primeiro calçado, Melissa, Rider, Ipanema e outras marcas – adianta Moroni.



 
 

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