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Drama06/02/2017 | 10h30Atualizada em 07/02/2017 | 13h52

Confira histórias de empresários de Caxias que passaram pela crise econômica

Eles pedem ajuda de todos os poderes para tentar sair da fase, que parece não ter fim

Confira histórias de empresários de Caxias que passaram pela crise econômica Diogo Sallaberry/Agencia RBS
Na foto, o empresário Antônio Tonolli Foto: Diogo Sallaberry / Agencia RBS

A maioria dos cerca de 1,5 mil empresários que estão enfrentado dificuldades financeiras para o pagamento de salários e impostos prefere não aparecer. Eles dizem sentir vergonha de terem fracassado. Alguns, no entanto, optaram por se manifestarem, de darem a cara a tapa para pedir ajuda e união. É o caso do empresário Antônio Tonolli. Confira sua história:

"Vamos nos dar as mãos" "Estamos com muitas dores. E ainda teremos muitas outras".

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A constatação feita por Antonio Carlos Tonolli, 60 anos, que fundou a empresa Tonolli Camas há mais de 40 anos em Caxias retrata o pessimista quase inevitável do empresariado local. A Tonolli é uma das mais tradicionais fabricantes de colchões e camas do Estado. Sempre prezou pela qualidade de seus produtos e de seus colaboradores. Afinal de contas, um bom profissional significa um produto de primeira.

Ele sempre se definiu como um homem honesto, trabalhador, alegre. Hoje, tenta ser honesto (pagando as contas em dia), continua trabalhando, mas a alegria deu lugar à preocupação. Seu olhar é sombrio. Casado há 32 anos com a professora Liane, ele conta suas dores, sem poder de reação.

— Não visualizo boas perspectivas para os próximos cinco anos — garante o empresário.Ele tem razão. Não há projetos para o comércio. Não tem linhas de créditos para bancar os estoques. As opções que temos disponíveis, diz Tonolli, são impagáveis.

Ele recorda, com tristeza, o que era Caxias do Sul há 30, 40 anos. 

— Não faltavam definições que nos davam orgulho: era um polo turístico e de compras. A indústria tinha independência, e a cidade, uma diversidade impressionante. Cantinas funcionavam na área central. Caxias era a rosa dos ventos (andava no rumo certo).

E o que temos hoje?

— Comerciantes desanimados. Governantes sem visão de futuro, que só sabem cobrar cada vez mais impostos sem dar nada em troca. Hoje, menos de 50 mil habitantes de Caxias (dos cerca de 500 mil) têm potencial de compra.O que fazer?

— Temos que nos dar as mãos. Proprietários e funcionários precisam andar juntos para salvar o negócio e seus empregos. Temos de priorizar o bom senso. Está na hora de os sindicatos e governos se manifestarem. Caso contrário, teremos uma cidade sucateada.

Tonolli é daqueles empresários que gosta de criar laços com seus trabalhadores. Por isso, quase não há rotatividade em suas lojas, que já tiveram o dobro de funcionários. Os 17 que restaram entendem as dificuldades e, quando necessário, a negociação é o caminho. Sem protestos. 

Texto enviado ao Pioneiro no segundo semestre do ano passado por uma empresária caxiense que não quis se identificar. Ela permitiu a divulgação como alerta sobre o momento pelo qual tantos empreendedores estão passando: 

Quando decidimos empreender em 2005, fomos com tudo. Investimos o capital que tínhamos aplicado e foi em um momento superpositivo. Trabalhamos com peças, e o nosso maior cliente, na época, era a Marcopolo. Em 2011, sentimos a primeira fase da crise. Além da redução drástica da demanda, alguns clientes começaram a ficar inadimplentes e isso provocou um efeito dominó.Começamos a atrasar os fornecedores, necessitar de mais crédito a juros altíssimos em bancos, tomamos alguns calotes e quatro dos nossos clientes fecharam as portas e não vimos a cor do dinheiro até hoje. O prejuízo foi de R$ 1,2 milhão. Na época em que isso aconteceu, estávamos faturando em torno de R$ 3,5 milhões ao mês e chegamos a ter 300 funcionários.Começamos a ter prejuízo todos os meses, com a redução da demanda. Reduzimos o quadro de pessoal e acabamos por demitir de uma vez só 35 pessoas. Demissões, além de abalar a equipe, geram um custo absurdo e podem somar uns 10 processos trabalhistas de uma vez.Contratamos uma consultoria para tentar recuperar a empresa e optamos por entrar na briga com os bancos judicialmente, para poupar nossos funcionários e fornecedores, que sempre foram a nossa prioridade. Renegociamos a dívida e parcelamos a perder de vista com a esperança de que o mercado retomasse. De lá pra cá, só patinamos.

Vendemos uma chácara em Ana Rech, um terreno no litoral gaúcho, troquei meu carro por um de menos valor, refinanciamos o carro do meu marido, vendemos um apartamento que ganhei de herança.A verdade é que, de 2011 para cá, nunca nos recuperamos. As coisas chegaram a estacionar, mas nunca melhoraram. Conquistamos novos clientes fora de Caxias, mas a logística não permitiu grandes avanços no faturamento. A cada fim de ano, nossa vida só piorava, pois precisávamos pagar férias, 13º salário e o nosso faturamento sempre cai entre novembro e março. Pagar todo mundo foi a maior dificuldade.Estamos há cinco anos sem tirar férias. E não estou falando de Miami e Paris, estou falando de Torres, Capão, Gramado. Então, entramos em 2015 no pior momento da nossa empresa, até fecharmos as portas em 2016. Nos endividamos mais ainda: empréstimos familiares, factoring, bancos, amigos...Em fevereiro de 2016, ainda não tínhamos terminado de pagar o 13º salário dos funcionários. Não podíamos demitir pois não tínhamos dinheiro para pagar as rescisões. Mantivemos a fábrica parada, fizemos flexibilização, mas os funcionários acabaram se revoltando apesar de concordarem na assembleia com o sindicato. Era uma maneira de mantê-los empregados. Nossos esforços foram em vão.

Vimos que não tínhamos mais saída, quando começamos a receber processos trabalhistas de funcionários ainda empregados, pedindo valores exorbitantes, de R$ 12 mil a R$ 60 mil, todos descabidos. Então, alguns dos nossos fornecedores pediram a recuperação judicial. E foi o nosso fim.Ficamos apenas com a casa que moramos (financiada, que só pagamos quatro anos), os carros que não podemos vender (estão em garantia nos bancos), sem crédito, sem nada.. Na miséria, de verdade! Meus pais estão nos ajudando a fazer as compras mensais, pagaram a escola da minha filha por uns meses, combustível, luz, contas básicas.Minha filha não está mais na escolinha maternal – fica comigo full time, não tenho empregada, estou desempregada, fazendo cupcakes!!! 

Já fiz algumas entrevistas, mas vejo que é apenas a agência querendo saber mais sobre o currículo.A maioria dos concursos públicos, principalmente os relacionados a instituições bancárias, não aceita candidatos com restrição no SPC. Meu marido permanece inerte, em choque, na cama, calado. E não posso sair de perto dele, temendo sempre o pior. Recebemos ajuda de uma vizinha que é psicóloga e topou atendê-lo sem cobrar até que possamos pagar. Depois de passar por isso, tive a certeza absoluta de que o que vale mesmo é o amor que sentimos nessa vida. É só isso que levamos dela.E assim a nossa vida segue.

Abraço, F.

 
 
 

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