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Opinião02/11/2020 | 07h00Atualizada em 02/11/2020 | 07h00

Sandra Cecília Peradelles: coragem, coração!

É preciso ainda mais coragem para nos permitirmos sentir todas as nossas dores e enxergar que não é só disso que somos feito

Sandra Cecília Peradelles
Sandra Cecília Peradelles

comunicaperadelles@gmail.com

Dia desses foi difícil levantar da cama, o dia nebuloso e cinza se transpôs e veio habitar dentro de mim. Sei que, vez ou outra, dias assim são até saudáveis para que nos encontremos com nossa humanidade. O material humano do qual somos feitos pede multiplicidade de sentires, mas exige força pra ir além, mesmo quando somos pura tormenta e tempestade. 

Então, digo, pra mim e pra ti: Coragem, coração! Deixa doer, quando a dor existir. Deixa seu corpo se prostrar quando o desespero pedir inércia. Deixa gritar quando não couber mais no peito o desassossego. Deixa as lágrimas banharem seu rosto quando for preciso materializar o sofrer. 

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É preciso muita coragem pra sentir, pra se deixar ser gente no mais profundo da nossa fragilidade. Mas, não deixa muito não. O espírito pode se acostumar ao estado de baixa guarda, ele pode acabar indo tão profundo que ficará muito difícil voltar à superfície. 

E, é preciso ainda mais coragem para nos permitirmos sentir todas as nossas dores e enxergar que não é só disso que somos feitos. Fomos forjados em beleza de ser, criação natural do divino ou do universo. Acredite você em quê acreditar, somos, sim, criaturas nascidas de milagre e mistério. Como seres tão especiais merecemos a felicidade, mais isso custa. O  preço é viver! 

Viver têm essas nuances de nem tão ao céu e nem tão ao inferno. Somos terrenos, cá estamos. A caminhada é o nosso apogeu. Seguir é a nossa sina. Por vezes nossos passos se dão em estradas tortuosas, cheias de buracos, pedregulhos que nos machucam os pés e barreiras que parecem ser intransponíveis. N’outros momentos, a estrada é pacata, o sol brilha, tem brisa fresca e o horizonte parece promissor. 

São tempos necessários, que se complementam, um nos faz reconhecer o outro. E, o mais importante: nenhum se estende no para sempre. Nada no mundo é perene. Nada! 

Para dias de fardo pesado, onde nem o sol aquece meu coração, carrego na minha bagagem de vida um mantra, fragmento do livro Grande Sertões Veredas, de Guimarães Rosa. É assim: “O correr da vida embrulha tudo. A vida é assim: esquenta e esfria, aperta e daí afrouxa, sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente é coragem.”

Quando necessito, repito esse mantra mentalmente, com a mais fervorosa fé que herdei de minha mãe. Fé no mundo, fé nas pessoas, fé em mim. Ele acalma o palpitar do peito, traz resiliência, mas seu resultado não chega em brevidade. Geralmente, preciso fazer mais que uma prece usando palavras de um santo sem santidade. 

O processo de dar conta de seguir, se dá na praticidade. O velho e funcional processo de levantar e andar: acolho minhas lamúrias, levanto da cama, faço um alongamento, tomo um banho quente e demorado, crendo que a água pode levar muito mais que sujeira. E, enquanto vejo minhas frustrações indo ralo abaixo, vou racionalizando que são apenas dias ruins e não sintetizam a vida inteira.

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