Pedro Guerra: urubus de charuto - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 
 

Opinião20/11/2020 | 15h55Atualizada em 20/11/2020 | 15h55

Pedro Guerra: urubus de charuto

Entendi na espera que o lado ruim de pedir humildemente por um sinal é que nós não temos ideia de como e quando ele vai vir

Pedro Guerra: urubus de charuto Antonio Giacomin / Divulgação/Divulgação
Foto: Antonio Giacomin / Divulgação / Divulgação

Há algumas semanas eu pedi por um sinal divino. Sabe quando a gente tem a impressão de que não entende o que fazer e a tomada de decisão soa como um fardo muito pesado para sustentarmos sozinhos? Pois é. No escuro do quarto, deitei na cama e encarei o teto para pedir (mesmo que em silêncio) por um sinal. É claro que dois minutos depois eu já estava atento, esperando por qualquer movimentação inusitada dentro de casa ou alguma trovoada do lado de fora. Mas nada disso aconteceu e acabei pegando no sono.

No dia seguinte, ainda nada. Entendi na espera que o lado ruim de pedir humildemente por um sinal é que nós não temos ideia de como e quando ele vai vir. E é exatamente nessa lacuna de tempo que passamos a questionar cada grão de poeira que está ao nosso redor, como se absolutamente tudo tivesse um porquê – ou, pior, como se tudo gritasse: ei, eu sou o seu sinal! Não foi você que pediu?!

Leia mais
Pedro Guerra: notícia urgente
Pedro Guerra: Saturno me fez assim

Confesso que já tinha até desistido da empreitada quando, no final daquela tarde, minha casa quase foi invadida por dois urubus gigantescos (é sério). Corri a tempo de fechar as janelas, caso contrário eu teria saído porta afora e deixado o apartamento de herança para eles sem problema algum. Contudo, o desvio da dupla foi rápido e fez com que eles pousassem no parapeito da sacada da vizinha. Levou algum tempo para eu entender que não eram corvos nem pássaros mutantes, e eu até precisei tirar fotos para verificar com alguém mais inteligente depois.

Eram urubus. E, bem... Você sabe o que o Google diz sobre urubus.

De imediato, fiquei desesperado. Logo depois, lembrei que sou teimoso e gosto de duvidar até do Google.

Segui em frente com minhas pesquisas porque o olhar daqueles urubus não mentia: eles estavam ali para e por mim. E era hora de descartar qualquer crença, religião ou ceticismo para acreditar que, se eu havia pedido por um sinal, seria burrice recusá-lo. Assim, não demorei muito para encontrar o real significado por trás dos urubus – e, sim, ele é bem diferente das tradicionais lendas que estamos acostumados (o que me permitiu respirar tranquilo novamente, aliás).

Com meu sinal em mãos, agradeci a todos os envolvidos, mas principalmente a mim mesmo. Achei justo comigo dedicar uma parabenização especial por ter compreendido que aquilo era o que eu esperava, e que era dever só meu significar a cena (vai por mim, não faz mal sermos gratos com nós mesmos). O problema da história toda foi que eu absorvi tanto a lição que passei a enxergar uma mensagem em tudo: no galho da árvore que quebrou exatamente quando eu pisei na calçada, nas três placas de carro que terminavam com o número 7 que enxerguei no trânsito, na cinza da bituca de cigarro que despencou da janela do vizinho e voou com o vento das nove horas da manhã de primavera, e por aí vai...

Foi uma chuva de sinais. Antes de enlouquecer, então, lembrei do que Freud disse: “às vezes, um charuto é apenas um charuto” – e fim de história. Simples assim, tanto quanto um fio de cabelo preso no ralo do chuveiro que é só um fio de cabelo e nada mais. Mas os meus urubus... Ah, sim! Eles foram o meu sinal... E da próxima vez prometo que vou deixá-los entrar.

Leia também
Natureza em meio à cidade: a serenidade Sérgio Tomazzoni e sua relação de amor com o verde e a família
Rapper W Negro lança clipe em homenagem a Oliveira Silveira e Nelson Mandela
Websérie "Sbornia em Revista" estreia neste sábado
Filme "Demba África" ganha estreia nesta sexta, Dia da Consciência Negra

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros