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Opinião12/11/2020 | 07h00Atualizada em 12/11/2020 | 07h00

André Costantin: minha vida dos outros

No meu caso, documentarista, estou condenado a viver a vida dos outros

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

O carro segue de São Paulo para Curitiba, onde filmaremos as histórias de Cloud e Merry, duas jovens sírias, refugiadas de guerra. Olho a paisagem volante sem poder nela deter-me por inteiro. Um letreiro de pedras brancas na mata atlântica, ao largo da rodovia, anuncia uma cidade qualquer. Isso aumenta a minha fome de lugares.

Em viagem, amplifico imensamente a vida; mas de certo modo também vegeto para então viver outras vidas. Zuenir Ventura chamou de “Minhas histórias dos outros” um de seus livros. No meu caso, documentarista, estou condenado a viver a vida dos outros.

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Deixamos à chuva a grande babilônia, depois de alguns dias de andanças e gravações. Ainda latejam na memória as lágrimas de Omar, rapaz boliviano que perdeu todos os amigos quando chegou ilegalmente em São Paulo para encerrar-se em trabalho escravo nas oficinas de costura no bairro do Brás. E do Brás, no afã da liberdade, indo viver em uma casinha refugiada nas quebradas de Itaquaquecetuba.

Foi debaixo da estação de metrô do Brás que o peruano Félix conheceu o que é dormir na rua, depois de tentar ganhar a vida puxando cabos em torres de telefonia. Seu olhar, ante à tela da estação, hoje vigiada por câmeras e leões de chácara fardados, mistura-se à bruma dos montes desta parte da Via Dutra.

A estrada deixa a serra e anuncia os extensos lançantes que em poucas horas revelarão as araucárias na linha do horizonte. E as vidas de Cloud e Marry, cujos enredos terei de sondar, decifrar, entender, registrar, viver e, quem sabe, um dia, esquecer. Em breves instantes viverei uma guerra, suas separações, grandes travessias existenciais que eu jamais poderei cumprir.

E amanhã será assim outra vez, quando conhecer Dave, herdeiro das catástrofes do Haiti; e depois de amanhã Javier, refugiado de Venezuela. Logo adiante Carven, Anne. Reentro na vida dos outros em pleno rescaldo da pandemia. Usamos desinfetantes para conter o vírus. Mas a vida dos outros vai passar pelas máscaras, vai entrar aqui dentro.

Nesta sina, a minha fome de mundo mistura-se com as fomes reais e simbólicas de tanta gente. Muitas e extraordinárias biografias. Cada vida capturada daria um livro; cada história hei de transformar em um testamento existencial.

A danação consiste em ter a consciência de que a minha vida é pouca. Não é livro, nem filme. Escuto histórias. Pedreiro migrante erguendo edifícios apócrifos da cidade. Subindo e descendo por andaimes narrativos, morrendo para viver a vida dos outros.

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