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Opinião19/11/2020 | 07h00Atualizada em 19/11/2020 | 07h00

André Costantin: Jair é gay?

Mas o porquê da pergunta, se isso não me interessa, não vem ao caso?

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Ser gay não é crime, errado ou feio. Portanto esta pergunta não deve ofender ninguém. Eu mesmo respondo quando perguntam isso, sobre a minha pessoa – apenas digo sim, não, talvez (ou: todas as alternativas estão corretas).

Necessário observar, antes de levar pedrada de todos os lados, que se Jair fosse ou assumisse ser gay, talvez escalasse alguns milímetros a montanha da humanidade. Seria uma pequena prova de coragem. Mas o porquê da pergunta, se isso não me interessa, não vem ao caso?

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A questão faz algum sentido, pois o próprio Jair puxou o babado. Obcecado pela sexualidade alheia e não contente em espinafrar gays, pretos, transgêneros, minorias, civis e até brancos e generais que pensam diferente do pessoal da extrema-direita, ele ainda bradou que precisamos deixar de ser um país de “maricas”.

Para fugir da psicologia de galinheiro, e tampouco flertar com 50 ou 64 tons masoquistas et cetera, convém evitar certos traços epidérmicos da personagem em questão, como a defesa da tortura, os trejeitos de macheza alegórica, o fascínio por fardas e armas (com ênfase em grossos calibres).

Armas que, aliás, brotam ao nosso redor, desde o conto de fadas armado das classes médias até os outdoors do Senac pela cidade. Observem: na imagem há três adolescentes em gestos apontados para a câmera; a menina da direita faz uma arminha com os dedos. Efeito Jair. Na beira do caminho, é de sentar e chorar.

Tudo estava escrito. Não na peste dos gafanhotos e pragas do Antigo Testamento, mas nos seriados de tevê. Nos EUA, eram Os Simpsons que gozavam com a ideia de Donald Trump na Casa Branca. Aqui, no início dos anos 1980, o famoso Capitão Gay, de Jô Soares, anunciava a nossa sina. Mas era um capitão que nos amava, cantando: “É o defensor das minorias; é sempre contra a tirania...”

Acho que a questão nem é essa, gay ou não. Porque para isso é necessária uma vida interior, a ser sondada, revelada. O padrão Jair inclina-se ao “macho alegórico”. É um conceito que logo entenderemos melhor, nestes trópicos. É o homem enfeitado de signos e penduricalhos de masculinidade. Maquiado. Para ser visto, mais que sentido.

Pouco tem a ver com as “grandezas machas” de Riobaldo e Diadorim, das veredas de Guimarães Rosa. O macho alegórico tudo anuncia. Não canta; grita. Jamais anda só. Precisa de gente em volta para carregar as barras da fantasia. Mais ou menos como certas alegorias dos desfiles da Festa da Uva (pronto! – agora vou tomar pau da direita, da esquerda e de toda a Sinimbu).

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