André Costantin: furúnculos - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 
 

Opinião05/11/2020 | 13h15Atualizada em 05/11/2020 | 13h15

André Costantin: furúnculos

O fascista de hoje é mais ou menos como acidente de carro: mais perto de casa, o risco é maior

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Você já chamou alguém de fascista hoje? Não será por falta de oportunidade. Pode ser na rua, em uma banca de avaliação acadêmica ou até mesmo em uma conversa de futebol.

Leia mais
André Costantin: o muro e a roseira
André Costantin: Diário do Girino
André Costantin: Jacobpacabana

E não se surpreenda se o seu interlocutor responder, com um sorriso, na fila do pão: “muito obrigado”. Mas a grande chance disso acontecer está nos grupos do whats e nas telinhas dos celulares.

O fascista de hoje é mais ou menos como acidente de carro: mais perto de casa, o risco é maior. Por mera distração nossa. Ser uma pessoa de berço, Deus pátria famiglia et cetera & tal, por incrível que pareça, já é meio caminho andado para um fascista de bem.

Ter ideias e inclinações fascistóides – ainda que não consolidadas como fascismo raiz – entrou na moda faz algum tempo. Sem drama. Pois até para ser um fascista de conceito o sujeito teria que ter alguma consciência histórica do que foi isso ao longo do século XX.

Então é melhor descomplicar, à brasileira: menos letras e mais figuras, memes, gifs. O fascista de bem tem orgulho de escrever errado, sem pudor, independente da condição de estudo ou de acesso aos dicionários. Confunde quase tudo o que é ideia ou teoria, a ponto de se autodeclarar um libertário no espectro social, só para poder justificar e viver o seu conto de fadas armado.

O fascismo proporciona um estranho prazer de automutilação às multidões. Estão aí os latinos da Flórida, que não me deixam mentir: o ponteiro da eleição americana marcando 213 delegados pró-Trump, ameaçando manter no trono o monstrengo ianque que só Os Simpsons previram na Casa Branca, por puro deboche.

Outro traço interessante do novo fascismo é seu cruzamento com as religiões. Hitler, que explodiu a própria cachola no bunker, e Mussolini, que acabou de cabeça para baixo, não metiam tanto Deus em suas monomanias. Aqui, a nação foi logo embarcando no lema “Deus acima de tudo”, alardeado pelo nosso messias de itálicas reminiscências do interio(rrr) paulista.

Há tempos venho sondando os antecedentes sociais e morais que nos trouxeram a esta quadra histórica no Brasil e parte do mundo. Mas quem melhor resumiu essa encrenca toda foi o mestre cronista Ruy Castro, na semana passada: a sociedade brasileira tinha uma infecção danada, precisava só de um furúnculo para estourar. Deu nisso.

A imagem que então vem à mente é a clássica ilustração de capa de Cem anos de solidão, de García Márquez: o corpo do caudilho Buendía, protótipo do herói latino-americano, é carregado com os membros esticados, crivado de furúnculos.

Leia também
CINEMA: confira os horários dos filmes em cartaz a partir desta quinta nas salas de Caxias e Bento
Cia Municipal de Dança de Caxias inicia série de vídeos sobre a solidão
Avaliação Nacional de Vinhos terá Galvão Bueno e Antônio Calloni entre comentaristas
Vitrine Conceito, em Caxias, será ambientada com obras que homenageiam os pets
Bento Gonçalves terá apresentações musicais no interior

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros