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Opinião03/11/2020 | 07h00Atualizada em 03/11/2020 | 07h00

Adriana Antunes: sobre o Dia de Finados

O Dia de Finados é uma espécie de encruzilhada afirmativa do que é o devir

Segunda-feira foi dia dos mortos. Um dia que oficializa a morte do corpo físico. Um dia no calendário para lembrar que somos finitos. Habitamos esse corpo momentaneamente. Talvez por alguns anos, mas não para sempre (ainda bem). Dar-se conta disso me parece fundamental para tentarmos viver o possível dentro deste espaço-tempo. Cruzar a vida de modo feliz. Talvez dar-se conta disso também pudesse ajudar a sermos o que somos e não o que devemos ser, afinal, amanhã podemos não existir mais. No entanto, carregamos uma culpa imensa por não termos o corpo perfeito, por não correspondermos aquilo que o outro espera de nós, por não seguirmos o padrão esperado e dessa dívida impagável, herdamos a angústia de não nos aceitarmos. Apagamos a dádiva da diferença, negamos o que nos subtrai e inventariamos nossa mudança. Nos sujeitamos às vontades alheias, calamos nossos sentimentos, subjugamos nossos desejos, acreditamos na verdade do outro desvalidando a nossa. Adentramos os consultórios doentes de amor e de raiva.

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O Dia de Finados é uma espécie de encruzilhada afirmativa do que é o devir. Um exercício de encenação. E se amanhã algo me acontecer, terei feito todas as viagens que desejei fazer? Terei beijado quem tanto desejei beijar? Terei dito te amo ou te odeio a quem deveria ter dito tanto com tanto sentimento? Falas e dias prisioneiros implodem sem as capturas das levezas das horas que passam sem jamais voltar. É preciso habitar as forças, sem forçar, assim como fazem os gerânios. Apostar na potência da vida, opor-se aos regimes de produção, questionar os modos de vida, diluir-se na experimentação, apostar na suavidade, leveza para viver sem fechar-se em si. É preciso almar-se (de alma plena) para ir além do que se é.

Nos machucamos, magoamos, afastamos, damos às costas com medo que o outro nos maltrate e não nos damos conta de que ao fazer isso, somos os primeiros a nos ferir. Gosto de pensar que vivemos nas dobras. Dobramos, desdobramos, redobramos nosso corpo, nossa alma, nossa vida e nossas mortes metafóricas mais pelos outros do que por nós mesmos. Não há resposta ou receita para o que se quer viver. Há apenas o viver.

Talvez viver seja improvisar, uma pré-visão sem pré-cisão do que seja o navegar, numa brevíssima alusão a Fernando Pessoa. Viver é experimentar o mel e o fel, às vezes ao mesmo tempo. Viver é ventania, é acaso, é caos, é encanto, é fissura, é rasgo, é toque, é suspiro, é lágrima, é dor, é alegria, é despir-se, é cheirar os poros, é partir-se ao meio, é parir a diferença, é desobedecer ao que se anuncia.

Segunda-feira foi Dia de Finados, mas de certa forma é sempre um dia morto. Passou. Vivemos bem ou mal, mas jamais poderemos voltar a ele. Nem a nada que pertence ao passado. Por isso é sempre válido pensar que somente temos conosco o hoje e que precisamos vivê-lo da melhor maneira possível.

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