Tríssia Ordovás Sartori: quero fazer como Mafalda e "viver sem perceber" - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião02/10/2020 | 10h57Atualizada em 02/10/2020 | 13h23

Tríssia Ordovás Sartori: quero fazer como Mafalda e "viver sem perceber"

A personagem sempre teve um quê de infância, mas esse olhar de menina inconformada com os rumos que a humanidade tomou ainda é bem significativo para mim

Tríssia Ordovás Sartori: quero fazer como Mafalda e "viver sem perceber" Fábio Panone Lopes/Especial
Esse olhar de menina inconformada com os rumos que a humanidade tomou ainda é bem significativo para mim Foto: Fábio Panone Lopes / Especial
Tríssia Ordovás Sartori
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Tem uma música tri linda do Beto Guedes e Ronaldo Bastos, Amor de Índio, que tem um verso que eu adoro, sobretudo na voz de Milton Nascimento: abelha fazendo mel vale o tempo que não voou. Talvez o desenhista Joaquín Lavado, o Quino, que morreu na quarta-feira passada, aos 88 anos, nunca tenha parado para pensar nisso. 

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O criador da Mafalda, uma das mais icônicas personagens da América Latina, decidiu parar de desenhar histórias para ela uns 10 anos depois de tê-la criado, em medos dos anos 1964, em plena época de efervescência da contracultura. Ele meio que cansou de ficar desenhando a mesma gama de personagens – Manolito, Felipe, Miguelito, Guille e Susanita –, mas eles e, especialmente, ela, nunca o deixaram. Em algum momento, Quino chegou a afirmar que era “como um carpinteiro que fabrica um móvel, e Mafalda é um móvel que fez sucesso, lindo, mas para mim continua sendo um móvel, e faço isto por amor à madeira em que trabalho”. Tentou minimizar a grandeza da criação, que chegou até a ser alvo de análises acadêmicas, como do semiólogo italiano Umberto Eco, que atribuiu um novo repertório simbólico às histórias.

Isso é o fantástico das criações e, por que não, das interações. Depois que algo sai da gente, pode ganhar qualquer dimensão possível – não dá para prever, não dá para parar a roda. Já se questionaram de que forma (ou pelo que) somos identificados? Pelo trabalho, pelas opiniões, pela aparência, pela condição social? Todos temos impressões superficiais uns sobre os outros, muitas delas construídas com base em informações quase falsas que são exibidas justamente para dar conta de alimentar o imaginário alheio. Por isso que, nos dias de hoje, uma Mafalda se faz ainda mais relevante e necessária.

Quem nunca quis ser um pouco como ela, a guriazinha cheia de ideias que amava os Beatles e detestava sopa? Que falava com o globo terrestre como se buscasse uma resposta para suas angústias? Lembro de ler as historinhas na casa do meu vô, que tinha uma coleção de livros do Quino. Mafalda sempre teve um quê de infância, mas esse olhar de menina inconformada com os rumos que a humanidade tomou continuou me interessando anos a fio e ainda é bem significativo. 

Mesmo na ficção, me encanto com aqueles que conseguem provocar esse tipo de reflexão, que têm a noção de seu tamanho e sua responsabilidade no mundo. Que, além de provocar, conseguem olhar para o outro, importar-se, apontar um novo caminho: essas podem ser expressões legítimas de generosidade. Conseguir fazer isso com humor e naturalidade, então, é irresistível. 

Acordei meio assim, como numa das frases eternizadas por Mafalda: “hoje eu quero viver sem perceber”. 

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