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Opinião16/10/2020 | 16h58Atualizada em 16/10/2020 | 20h37

Tríssia Ordovás Sartori: Qual é a tua barra de chocolate?

Precisamos sentir o gosto da novidade de vez em quando, mesmo que não nos faltem condições materiais para viabilizar nossos desejos

Tríssia Ordovás Sartori: Qual é a tua barra de chocolate? Fábio Lopes Panone/
Foto: Fábio Lopes Panone
Tríssia Ordovás Sartori
Tríssia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Amo chocolate, mas só conheci uma plantação de cacau poucos anos atrás, no interior do México, num passeio bonitinho, mais ou menos preparado para turistas. Dificilmente a gente decide refletir como as coisas são feitas e alguns movimentos, especialmente na moda, volta e meia nos alertam para isso. Se não formos à feira, dificilmente conheceremos quem planta as verduras, as frutas e os legumes que consumimos. Não sabemos quem recolhe nosso lixo ou quem entrega nossas compras online. Ou quem apura as notícias que lemos — ok, essa parte eu sei (risos)... Nossas relações (com pessoas e objetos), muitas vezes, ficam na superficialidade. Outras, na completa ignorância, por falta de possibilidades, mesmo!

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Amo chocolate, mas detesto injustiça. Só que o mundo está longe de ser um lugar justo para se viver. Pessoas boas e altruístas nem sempre recebem as bênçãos por serem boas e altruístas. E o contrário também é muito verdadeiro, infelizmente. Resta a nós aprendermos a equilibrar expectativas e frustrações, resiliência e força. Não conheço outro jeito de aceitar a realidade. Dificilmente vivemos entre extremos o tempo todo e o meio-termo pode ser uma boa, às vezes e para variar. Nossos privilégios nem sempre parecem tão óbvios, mas em alguns momentos pílulas de realidade atravessam nossos dias e, aí, não há como fugir.

E por que esse preâmbulo todo? Só para contar que fiquei muito tocada com um vídeo bem antiguinho feito por um canal de tevê holandês, a que assisti nessa semana, com pessoas que trabalham na produção de cacau. Ele foi gravado na Costa do Marfim, um dos principais produtores da fruta no mundo. O que impressiona e emociona é que a maioria dos trabalhadores que vive disso não sabe qual é o gosto do chocolate, porque nunca teve acesso à iguaria. Não sabe sequer o que é feito com as sementes que secam em seus quintais. Isso porque uma barra de chocolate custa um terço do valor que eles recebem por dia de trabalho, algo em torno de 7 euros. Chocolate é produto de luxo e está longe do alcance daqueles trabalhadores. Boa parte deles nunca viu uma barra, não tem ideia do formato, de que são dispostos em quadradinhos e envoltos por um papel. “Não sabia que cacau era tão delicioso”, diz um, que, ao receber uma barra, decide compartilhá-la com amigos. E todos ficam maravilhados e surpresos com o doce.

Já pararam para pensar quantas coisas fogem do nosso entendimento, mesmo que estejamos intimamente ligadas a elas? Que às vezes precisamos de oportunidade ou estímulo para virar o jogo, para provar do desconhecido ou para reconhecer a nossa ignorância? Precisamos sentir o gosto da novidade de vez em quando, mesmo que não nos faltem condições materiais para viabilizar os nossos desejos — afinal, nem todos são palpáveis e possíveis de serem comprados no supermercado.

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