Sandra Cecília: ser feliz não é obrigação - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 
 

Opinião26/10/2020 | 18h35Atualizada em 26/10/2020 | 18h36

Sandra Cecília: ser feliz não é obrigação

Temos que ter em mente que o namastê do colega traz felicidade para ele, não para você

Sandra Cecília Peradelles
Sandra Cecília Peradelles

comunicaperadelles@gmail.com

As horas beiravam à meia noite, era sexta-feira, meu corpo já rejeitava qualquer atividade com consumo mínimo de energia. Em home office, ao passo que sou mãe e dona-de-casa, acumulando problemas mil, estava cansada demais até para dormir. 

Pensando em como exorcizar meus fantasmas, lembrei que mais cedo, enquanto caminhava com minha filha, havia surrupiado, com ótima intenção, umas mudas de hera inglesa. Resolvi fazer um berçário e ver minhas novas meninas crescerem. Catei os apetrechos da Sandra-Jardineira-Amadora e fui à luta. 

Leia mais
Sandra Cecília Peradelles: caso Robinho e o medo de ser mulher
Sandra Cecília Peradelles: o que é uma mulher bonita?

Preparei muda, terra, adubo e, dali a pouco, as verdinhas já tinham assento em minha casa com luz próspera. Eu me senti tão bem. Amo plantar, mas confesso que o mal estar social, físico e emocional do tempos em que vivemos quase me tirou isso. Há semanas não conseguia me dedicar veramente a nada que não fosse a realidade de criar gente, sustentar casa. 

Quando consegui mexer na terra sem sentir aquilo como obrigação, recebi felicidade plena de presente. Sabe, acho que felicidade deve ser algo assim, algo que vem sereno de dentro para fora, uma paz imensa que dá até sono. E, imprescindivelmente, é natural e absolutamente nosso. 

Temos que ter em mente que o namastê do colega traz felicidade para ele, não para você. Precisamos, cada um de nós, encontrar nosso namastê, mesmo que ele seja duas horas de rock paulêra escutado ao fone de ouvido no máximo volume. Se busque, se encontre, viva como você sabe, gosta e se sente bem. Não existe fórmula da vida perfeita, por mais que às vezes pareça que sim. 

Vivemos duros dias, mesmo naqueles bons, onde tudo dá certo, há uma nuvem tempestuosa sobre nossas cabeças nos induzindo ao medo, à insegurança. A isso podemos nomear de pandemia ou instabilidade sócio-política-econômica-brasileira. De toda forma, vim te dizer que isso vai passar, ou não, mas, independentemente, precisamos sobreviver da melhor forma, cuidando de nós e dos nossos. A necessidade é resistir.

E, vim, também, te dizer que tudo bem não se sentir bem todo o tempo, ninguém consegue. Algumas pessoas disfarçam melhor o incômodo que sentem em ser gente e lidar com as questões de ser adulto num universo que exige de nós sucesso, sorriso e beleza. O mundo quer que sejamos bem sucedidos sob todas as óticas possíveis, sem nos contar que isso é impossível. 

Viver é coisa complexa, estar e ser criatura comunitária implica que olhemos profundamente ao nosso redor, vejamos o escracho, o desumano, o dolorido e, ainda sim, sigamos. Precisamos cuidar de quem habita nossa pele, sem adoecer nem o corpo e nem a alma, afinal, enfraquecidos não conseguimos ajudar ninguém, muito menos a nós mesmos. 

Conselho meu: tente achar alguma coisa que te salve da realidade, plante ou escreva como eu, leia, faça yoga, medite, grite sem parar em frente ao espelho, faça algo por você. Ser feliz é passagem, ache essas pequenas viagens de êxtase na existência. 

Você não é obrigado a ser feliz, mas se quiser muito, daí pode, daí deve. Tente! 

Leia também
Morre Altair Gelatti, pioneiro dos quadrinhos na Serra
Casa do Sabores é novidade em Canela
Mostra Gertrudes apresenta poemas adaptados para o teatro


 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros