Pedro Guerra: Saturno me fez assim - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 
 

Opinião23/10/2020 | 13h59Atualizada em 23/10/2020 | 13h59

Pedro Guerra: Saturno me fez assim

No fim das contas, acho que o meu passatempo favorito sempre foi imaginar como seria estar desprendido da Terra

Pedro Guerra: Saturno me fez assim Antonio Giacomin/
Foto: Antonio Giacomin

Quando eu era criança, decorei a ordem dos planetas a partir de uma frase que a professora da escola inventou. Eu lembro de me questionar o porquê de ter que decorar aquilo, já que eu nunca teria a chance de conhecer Marte ou Júpiter, por exemplo. Mas até hoje lembro de cor. Uma das atividades que fizemos na mesma época foi pesquisar sobre os planetas, e foi aí que eu virei amigo íntimo de Saturno, o tal planeta rodeado por anéis. Fiquei tão encantado pela possibilidade de existir um outro mundo tão distante da gente que, anos depois, frente a frente com a minha terapeuta, tentei justificar o meu comportamento com uma frase memorável: “sei lá, acho que Saturno me fez assim”.

Leia mais
Pedro Guerra: desculpe, mas não posso esperar
Pedro Guerra: meias vitórias

Na época, a minha psicóloga esboçou um sorriso – ou ela tinha achado realmente engraçado, ou ela estava pronta para fornecer o meu atestado de loucura (foi o que eu pensei). Desde então, leio bastante sobre astrologia porque tudo aquilo que é desconhecido me interessa (eu definitivamente sou um curioso por natureza), e foi aí que descobri que no último dia 13 de outubro Mercúrio ficou retrógrado.

Em um primeiro momento, dei de ombros porque eu não tinha nada a ver com isso. O meu negócio mesmo é com Saturno.

Depois, fui pesquisar.

A astrofísica diz que, cientificamente, tudo não passa de ilusão: do ponto de vista da Terra, o planeta Mercúrio parece estar ficando para trás, e só isso. Simples assim, fim de história... Sem graça, né?

Talvez por isso eu tenha me apegado ao conceito da astrologia: quando Mercúrio fica para trás, é tempo de revisão – de nós com nós mesmos. E como diz a minha psicóloga (é outra, ok? Várias já tiveram que me aguentar até hoje): “ninguém gosta de estar de frente consigo mesmo. Não é uma tarefa fácil”. E ela não poderia estar mais certa!

Então sentei para um diálogo intimista. Eu e todas as minhas partes temos conversado bastante. E por mais que você possa me achar um pouco louco por confessar isso, eu sei que todos somos feitos de tantos pedaços que a gente até traça como missão mantê-los juntos o tempo todo, como se de alguma forma pudéssemos viver constantemente inteiros (outra ilusão).

Mas somos feitos de fases. Que nem a lua, sabe? (Aqui vai outro satélite...). Assim sendo, cada pedaço da gente quer uma coisa diferente, então convencer a si mesmo de que alguma vez na vida estaremos em um conflito de uma pessoa só acaba se tornando um pensamento mais natural e aceitável.

Durante essa reunião pessoal, percebi que o ano inteiro tem sido um grande Mercúrio retrógrado, e que esse tempo de revisar o que temos para descartar, o que permanecerá conosco, ou ainda o que precisa ser remodelado, está acontecendo há meses. Quem sabe tudo aquilo que enfrentamos neste momento não seja para proporcionar o encerramento de um ciclo – e todo término é sempre duro demais.

Então decidi que eu e Saturno precisamos dar um tempo. Por enquanto, vou me aventurar em Netuno e conhecer um pouco mais sobre Vênus. No fim das contas, acho que o meu passatempo favorito sempre foi imaginar como seria estar desprendido da Terra – e como é mais fácil autojustificar-se quando reparamos que até mesmo o mundo é diferente a cada nova rotação.

Leia também
Discutindo a temática LGBT+, documentário "Bem-vindo a Caxias do Sul" estreia nesta sexta
A arte não para #20: Jonas Piccoli faz literatura das memórias de infância
Músico Gabrre lança disco nesta sexta

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros