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Opinião23/10/2020 | 07h50Atualizada em 23/10/2020 | 07h50

Gilmar Marcílio: revolução invisível

Em nome da segurança, nos desfazemos de informações que, nas mãos erradas, transformam-se em armas de manipulação coletiva

O historiador Yuval Harari e eu acreditamos existirem poucas coisas mais imprudentes (e perigosas) do que entregar dados pessoais a empresas e governos. Você está concedendo a eles um poder quase infinito. Fermento ideal para provocar o crescimento rápido de diversas ditaduras. Em nome da segurança, nos desfazemos de informações que, nas mãos erradas, transformam-se em armas de manipulação coletiva. Nem vou falar aqui sobre o quesito privacidade. Para muitos, abdicar dela é o menor preço a se pagar diante das benesses introduzidas por essa revolução. E são incontáveis, sem dúvida alguma. O desenvolvimento da medicina e o controle da criminalidade, por exemplo, serão assombrosos. Neste momento, comemora-se a implantação de um inédito sistema de internet, o 5G. Vários países, precedidos pela China, já o adotaram. Ele é entre vinte e cinquenta vezes mais rápido do disponível agora.

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Maravilha. Isso se chama progresso, evolução, e não há argumento racional que justifique o estancamento dessa tecnologia. Mas nem tudo são flores e também há motivos para preocupação. Se, por um lado, baixará seus filmes prediletos em segundos e os delitos rastreados, pois as câmeras serão onipresentes em praticamente qualquer espaço urbano, esteja atento: poderá igualmente ser utilizado para o mal. Exemplo: os hackers terão formidáveis máquinas para vasculhar particularidades alheias e disseminar falsas notícias. Os usuários da “deep web” (internet profunda), onde se traficam drogas e órgãos humanos e se dá vazão a variadas taras, já devem estar vibrando. Mesmo colocando os prós e contras na balança, o resultado não esbarrará na paralisia, continuando o avanço. Mas penso ser conveniente fazer algumas ponderações antes de exultar irrefletidamente. Hoje não há praticamente sentido em discutir os patamares que separam o mundo real do virtual. É um conceito já superado pela própria natureza da questão, da maneira como se apresenta. Porém, um pensamento crítico sustenta o bom senso.

Por fim, a cada conquista obtida, deve-se lembrar da enorme dependência que teremos desse universo de maravilhas e de horrores. Seres com pendores pelo comando e pelo abuso de autoridade, certamente se valerão disso para ampliar seu controle sobre a população. Desconfio estarmos vivendo uma mistura das obras de ficção “Admirável mundo novo” com “1984”. Se antes eram consideradas distopias, passaram a adquirir ares de normalidade. Sem fazer muito barulho, esse modelo de vida está se tornando regra, padrão. Quem se recusar a aderir, será simplesmente excluído. Não haverá lugar para os adeptos de ideias anacrônicas como respeito ao individual, nem aos que se negarem à exposição constante, obscena. Absorveremos rápido o novo evangelho em nossas mentes. Talvez sequer nos daremos conta desse novo paradigma. Resta, porém, uma pergunta incômoda: devemos todos orar pelo mesmo Deus?

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