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Opinião02/10/2020 | 07h00Atualizada em 02/10/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: perto da felicidade

Os sábios, antigos e modernos, se debruçaram longamente sobre o tema e têm muito a nos dizer

Há várias maneiras de passearmos pela vida. Desabotoando nossos sentimentos e seguindo de peito aberto ou contendo as emoções e olhando timidamente para quem exulta de alegria. Tanto para os reservados quanto para os expansivos, o projeto de felicidade costuma se manifestar como um ideal. E aí talvez se situe o problema. Enquanto sonhamos com algo, colocando metas e aspirações, é praticamente certo ver o essencial escorrendo entre nossas mãos. Os sábios, antigos e modernos, se debruçaram longamente sobre o tema e têm muito a nos dizer. Mas o homem comum também. Minha atenção se intensifica quando me disponho a entender os mecanismos desse sentimento, pois está no cerne das buscas de quase todos nós.

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Converso com Antônio, um rapaz que vem à nossa casa fazer reparos elétricos. Percebo nele uma disposição e um contentamento incomuns. Roubo-lhe alguns minutos e vasculho detalhes de sua biografia. Trinta e oito anos, pai seis vezes. E em vias de reconhecer um sétimo descendente, fruto de uma aventura fugaz de sua juventude. Isso não o perturba nem o torna ressentido. Disse reagir com tranquilidade. Irá conhece-lo de bom grado, dividindo seu afeto e seu salário um pouco mais. Afinal, a responsabilidade precisa ser partilhada. Ganha razoavelmente bem, tem inúmeros amigos com os quais costuma assistir futebol e tomar cerveja. Seus anseios terminam aí. Insere em seu dia uma matemática singular: comprou recentemente um apartamento de sessenta metros. Fez as contas: ele, a esposa e quatro filhos ainda sob seus cuidados. Dividiu e chegou ao satisfatório resultado de dez metros para cada um. Olhou para mim, rindo: “Preciso de uma moradia maior? Bobagem. Durmo tranquilo, aprendi a aproveitar o que tenho. E a desejar só até o limite das minhas possibilidades.”

Difícil discordar de sua lógica. Dispensa divagações, deixando os questionamentos para quem não sabe usufruir de forma objetiva as benesses à nossa disposição. Seu ideal sempre foi e será o de se contentar com a paisagem presente. Ignora a fadiga de jornadas costumeiramente estendidas, incluindo sábados. Evita reclamar, tampouco se revolta, nem compara. Eis um modelo a ser seguido. O conhecimento, a reflexão, reveladores em tantos aspectos da existência, parecem adquirir contornos de irrelevância quando nos referimos à capacidade de extrair na prática de cada dia o seu melhor. Encanta-me ouvir alguém repetindo para si e para os outros o quanto está satisfeito. Não almeja nada além do que possui. Como uma planta ou um bicho, coincide consigo mesmo. Com a diferença (ou a superioridade) de usar a razão como um instrumento para se adequar à realidade.

E você, caro leitor, ainda continua atrelado à crença de que só mais adiante alcançará seus propósitos? Melhor acordar logo, antes que seus tesouros sejam roubados.

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