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Opinião09/10/2020 | 07h00Atualizada em 09/10/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: os cínicos

Normalmente praticado para humilhar, embora se confunda com um ato de inteligência

O cinismo é um deboche com pedigree. Parente próximo da ironia. Normalmente praticado para humilhar, embora se confunda com um ato de inteligência. Não é. Passeia solto entre os detentores de poder, pois dispensa o que mais falta neste universo: a coerência. Os mal-intencionados e possuidores de bom vocabulário, sabem fazer piruetas com as palavras, sequer deixando no interlocutor a sensação de ter sido humilhado. Fujo deles, pois divertem-se mostrando sua aparente superioridade. Acho-os “blasés”, mirando os demais como se estivessem um degrau acima da média. Tenho dificuldade em entender porque praticam essa “arte”, sendo somente um estratagema, antes que um ensaio para refinar as relações. Ao encontrar alguém desse feitio, um sinal de alerta vibra dentro de mim. Gosto de pessoas objetivas, claras, habituadas a focar e respeitar a semântica proferida. Sinto certo desagrado quando os vejo executando esse balé verbal, tendo como propósito o polimento do próprio ego. Reservo minha admiração para os de espírito doce, acostumados a olhar diretamente para os seres e as coisas, sem a tentação de entortá-los, numa tentativa equivocada de forrar-se de brilho intelectual.

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Já vivenciei situações do mais puro constrangimento. Dinheiro ou posição social servindo para justificar o abuso de frases destinadas a machucar, revelando apenas a insegurança de quem as profere. Nunca extraí de um diálogo ancorado nesse artifício a convicção de ter me tornado levemente melhor. Pelo contrário. Posso ter flertado em alguns momentos com as estratégias propostas pelo príncipe de Maquiavel, mas jamais me senti induzido a copiar esse modelo de comportamento. Teria escassa capacidade de transitar entre seus promotores. Eles comumente andam de mãos dadas com a dissimulação, despistando a verdade sem pejo algum. Na maturidade à qual pareço estar me instalando aos poucos, procuro os que escolhem a sensibilidade como um mercado a ser frequentado diariamente. Desconheço ganho maior, mesmo não podendo ser contabilizado no sentido do acúmulo. A autenticidade suaviza, torna prenhe de leveza o núcleo da vida. Precisamos ser práticos e é impossível acolher tudo com absoluta transparência. Mas enquanto houver em mim a possibilidade de me desviar das balas de prata dos debochados, não hesitarei em fazê-lo.

De onde se conclui: os neurônios nem sempre são usados para fins nobres. Pondere longamente antes de emitir uma sentença com dupla intenção. Talvez ela simplesmente gere um sentimento de arrogância em você. A menos que seja sádico, correrá o risco de se arrepender. Se isto não acontecer, tenha cuidado. Sugere-se procurar um terapeuta próximo: você pode estar necessitando ser salvo de si mesmo.

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