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Sociedade09/10/2020 | 17h51Atualizada em 09/10/2020 | 17h51

Em Londres, o designer caxiense João Maraschin fala sobre os valores e das saudades da família

Ele acaba de estampar suas criações na Vogue Itália e suas criações estão na exposição "A New Awareness", organizada pela editora de talentos da publicação

Em Londres, o designer caxiense João Maraschin fala sobre os valores e das saudades da família Arquivo Pessoal/Divulgação
Foto: Arquivo Pessoal / Divulgação

Prestes a completar cinco anos residindo em Londres, o designer caxiense João Maraschin vive expressivo momento na cena da moda internacional. Ele acaba de estampar suas criações na Vogue Itália, foi listado entre as jovens promessas mundiais e, além disso, integra a exposição A New Awareness, organizada pela editora de talentos da revista, Sara Maino.

— A Vogue Itália é um dos veículos de moda mais relevantes no mundo por fortalecer a visão de moda de criadores e marcas estabelecidas, mas também por abrir espaço para designers emergentes e os novos questionamentos da sociedade e do mercado. Minha primeira coleção 'Viajante Estrangeiro' foi publicada na edição de setembro, junto a um seleto grupo de revelações no setor. Sara Maino selecionou dez designers que olham para a moda com a bandeira da responsabilidade e sustentabilidade, à frente de qualquer decisão. Um dos looks da primeira coleção foi apresentado em exibição produzida pelo showroom WSM White, em Milão, durante a Semana de Moda de Milão que ocorreu semana passada — conta.    

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Atuando numa linha tênue entre estudos e trabalho, a pesquisa faz parte do dia a dia dele. Uma coisa alimenta a outra para evoluir em conceitos autorais.

— Desenvolvo um produto que é acessível a um público de todas as idades, mas não gosto da expressão 'ageless' (sem idade), ou do incansável prolongamento de uma imagem jovem, como atributo de desejo e objetificação. Me insiro no conceito de pró-idade, sustento a beleza do envelhecimento. De carona com essa ideia, também fortaleço uma relação saudável entre o feito à mão e a tecnologia, e a coexistência dos dois no mundo contemporâneo — explica o jovem de 29 anos, filho de Leda Andreazza e Paulo Maraschin e irmão de Marco, Francisco e Kelen.

Nesse percurso, o criador estabelece relações significativas em suas práticas de criação.

— Olho bastante para a passagem do tempo no meu processo de desenvolvimento, e ali reside também meu interesse em enaltecer o trabalho com comunidades de artesãos com mais idade, que eventualmente possam ter sido esquecidos, mas que carregam um enorme conhecimento que precisa ser apresentado ao mundo, logo preservado —argumenta criativamente.

A vida numa das principais cidades do mundo é um desafio e, ao mesmo tempo, uma elegia às descobertas constantes.

— Estar em Londres me proporciona alcançar pessoas em diversos lugares e ter um impacto não só global, mas local para com quem eu me relaciono. Hoje, trabalho com comunidades e artesãos no Reino Unido, na Itália, no Senegal, no Brasil e em Madagascar, o que potencializa uma experiência incrível para todo mundo que troca e entra em contato com as 'distâncias' do outro — complementa.

Cinco perguntas para João Maraschin

Como a moda tem dialogado com questões emergentes do mundo contemporâneo?
Com informação nova fluindo no toque da tela, todos somos responsáveis pelas escolhas que fazemos, o tempo inteiro _ e as nossas digitais estão nessas escolhas. A moda já existiu unicamente como fator de diversificação, no passado, mas hoje, de forma muito mais potente, é uma plataforma de inclusão, celebração da diversidade, abertura de diálogo, emancipação ou escape. Há inúmeras iniciativas privadas e corporativas que se usam da moda como veículo de melhoria de vida, sobretudo ainda temos muito chão para percorrer e mudanças para incorporar. É importante que continuemos dando espaço para o pensar, e como um produto pode impactar positivamente não só no aspecto financeiro, mas com efeito, no tecido social.

Quais deveriam ser as bandeiras da moda?
A moda está a serviço da sociedade como estímulo de evolução. Infelizmente, sob alguns olhares, moda sempre ocupou um lugar de certa futilidade e "desimportância". Mas se pararmos para pensar na semiótica do vestir, nos sinais e significados que possui ou são produzidos a partir de uma peça de roupa, é inevitável ignorar ou deixar passar sua relevância. A exemplo, o uso de calça por mulheres no início do século passado abriu uma porta de diálogo na emancipação feminina em um mercado dominado pelos homens; o jeans democratizou a moda e derrubou as barreiras de classe, símbolo da juventude, inclusão e pertencimento. Hoje, a moda precisa de uma bandeira que traz consigo muitas outras: respeito. Respeito à diversidade, às pessoas, ao meio ambiente, à cultura, ao diálogo. Olhar para o outro como fonte de crescimento, cuidar de como descartamos ou ressignificamos o lixo, usamos a água e todos os demais recursos oriundos da natureza. Dar valor às relações de forma horizontal, ninguém é mais ou menos importante do que ninguém, apenas exercemos funções diferentes. Dar valor à cultura, cultivar e preservar tradições e conhecimentos, valorizar os índios e seu importante papel na sociedade.

Como você tem vivido estas experiências de pesquisa e produção "no mundo" a partir de Londres?
Existe um interesse bastante grande por Londres e o que é produzido aqui. E, na minha opinião, essa característica se dá, principalmente, porque é um território onde os diferentes se encontram. A diversidade é o principal ingrediente da novidade. Além disso, um dos elementos que trabalho na minha prática profissional é a característica de ser estrangeiro. Não apenas no significado literal da palavra, mas na ideia de que em quaisquer relações de troca, somos estranhos, ou estrangeiros, ao outro. Nessa troca, precisamos negociar conceitos, sintonizar significados, balancear expectativas. 

Qual a importância da publicação na Vogue Itália e do projeto A New Awareness?
Esses dois momentos não são apenas importantes em um nível individual, no qual o meu trabalho ganha mais visibilidade - mas, principalmente, como forma de estimular novas discussões e sinalizar a importância de ampliar nossa consciência social, cultural e ambiental em quaisquer práticas de trabalho. Como jovem criador, fico muito honrado em fazer parte de um grupo que preza pela conscientização de processos mais responsáveis dentro e fora do exercício de moda.

Quais as lembranças afetivas que tens de Caxias?
Jornal na porta de casa, chimarrão de manhã cedo, o bolo de cenoura da minha mãe, o tortéi de moranga do meu pai, meus pais e os meus irmãos. E claro, o carinho de todas as pessoas por quem eu tenho grande apreço, que mesmo fisicamente distantes, têm enorme importância na minha vida.

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