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Opinião29/10/2020 | 07h00Atualizada em 29/10/2020 | 07h00

André Costantin: o muro e a roseira

Certos muros são simbolicamente mais altos do que suas dimensões concretas

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Quando cismaram em construir um muro de cada lado na entrada do condomínio, formando uma espécie de corredor polonês de blocos de concreto, eu fui voto vencido – em honra ao contraditório – no pequeno assentamento de média burguesia urbana encravado no vilarejo de traços ainda camponeses.

Na ocasião, vinha da América a magnífica notícia da construção de um muro dantesco na fronteira com o México, anunciada pelo hipopótamo ianque que recém ocupava o trono da presidência dos Estados Unidos. Lembro que então postei no grupo do whats a imagem de um muro, Donald Trump espiando por cima, com aqueles traços de idiotia e sarcasmo que passariam a ser imitados pelos poderes daqui.

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Acostumado que estou a ser minoria na maioria dos círculos de que participo, tomei pau de todos os lados da aldeia. Lamentei sobretudo o fato de que, de um lado da rua, perderia-se a visão de um roseiral de cerca, dessas rosas bagualas entretecidas em telas e arame farpado, feito um crochê etnográfico dos primeiros tempos da imigração.

Do outro lado, o muro passaria a bloquear, além da vista de um pequeno campo, a passagem fortuita das lebres e a sentinela volante dos quero-queros que, naquele reduto, costumavam criar os seus filhotes. Mas o que são estes pequenos apegos à natureza frente ao temor da violência e dos grandes muros sociais desta quadra histórica?

O muro de um residencial ao sul do quintal do mundo conecta-se à colossal muralha do Texas, unindo continentes de medo. Certos muros são simbolicamente mais altos do que suas dimensões concretas. São a falência do espírito livre; aprisionam a dura carne da existência. Dentro deles, tribos modernas ou nações bélicas vivem o seu conto de fadas armado, enquanto do outro lado vagam os novos migrantes. Assaltantes andam e vigiam, sob a proteção do próprio muro.

Por aqui, paira no ar o sonho de consumo de um dia estender o muro em volta de todos os moradores, formando uma edílica ilha murada no meio da mata, frequentada por dezenas de veios de havan. Sobre as milenares muralhas da China caminham os turistas do novo mundo. Másculos, os muros confrontam o espaço; mas se perdem no tempo, domínio do feminino.

Ontem, ao sair do condomínio, parei e colhi um botão da grande roseira, que já avulta por cima do muro e volta a estender toda a sua poesia aos nossos olhos de degredados filhos de Eva – e às lentes das câmeras de vigilância. Fui para a cidade, com alguma esperança: a rosa enfiada no velho corvim caramelo da porta do Fusca.

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