André Costantin: Jacobpacabana - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião15/10/2020 | 07h00Atualizada em 15/10/2020 | 08h37

André Costantin: Jacobpacabana

A rua Jacob Luchesi é o tambor de Caxias - artéria de um coração periférico ao sul do Brasil, mas não menos simbólico e revelador das quadras históricas deste país

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

“O Rio de Janeiro é o tambor do Brasil”. A frase é atribuída ao presidente-caudilho Getúlio Vargas, saído do Pampa profundo de São Borja para reinar na Baía de Guanabara. Tenho a minha versão do adágio getulista, reduzida, paroquiana: a rua Jacob Luchesi é o tambor de Caxias – artéria de um coração periférico ao sul do Brasil, mas não menos simbólico e revelador das quadras históricas deste país. I Love Jacob!

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Quando saio de Monte Bérico, onde escondo-me da cidade, logo encontro na Jacob Luchesi um termômetro do Brasil no presente instante. A rua é uma espécie de Jornal Nacional ao vivo e ambulante, com suas manchetes e clichês: os indicadores do PIB e da dívida (pública e privada) estão na quantidade de sofás e itens de mobília descartados no passeio público; a tendência dos mercados oscila na fumaça dos churrascos. A confiança no futuro estaciona na antiga e longa fila de caminhões na Ceasa.

Nesta semana, depois de muito tempo, percorri a Jacob de bicicleta, rumo a São Pelegrino, com o alforje carregado. Senti-me um completo otário buscando ar por trás da minha máscara de pano, em plena pandemia. Aliás, a Jacob ou a Avenida Atlântica de Copacabana têm o dom de nos fazer manés, nós, os comuns e medianos cidadãos cumpridores de normas.

No baile das máscaras da Jacob, notei que uns 30 % de viventes observam a regra geral, 40% estão nem aí, vagando e andando, inclusive anciãos discursivos e claudicantes de quem pagaremos a conta do SUS caso peguem o vírus; restam outros 30% que formam uma curiosa categoria oscilante, pendular, desfilando máscaras arriadas no queixo, dependuradas numa orelha, fumando, de todas as formas, menos a indicada. O gráfico das máscaras da Jacob dispensa pesquisas de opinião e antecipa a tragédia das próximas eleições.

Outro curioso traço que parece vir da Atlântica de Copacabana são os desfiles da Jacob, com viés de aventura urbana. Ao cair da tarde, as pessoas saem a caminhar no trânsito de BR 116 da Jacob – sem biquinis ou sungas, porém. Corredores e ciclistas dão voltas pela via, sempre no trecho mais tumultuado, entre as aglomerações do posto de gasolina na frente da capela de Santa Lúcia (a Pedra do Leme) até a Casa de Pedra (o Arpoador). Enquanto isso, as ruas paralelas ficam desertas como a ciclovia fantasma que a cidade (des)inteligente construiu lá em Forqueta, onde motoristas e moradores em geral odeiam bicicletas.

Como diz uma amiga Jacob da gema, que nasceu e cresceu por ali: são os Jacobinos. Tamborins do Brasil.

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