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Opinião08/10/2020 | 07h00Atualizada em 08/10/2020 | 07h00

André Costantin: Dicionário do Pampa

A obra de Aldyr Garcia Schlee deveria estar nas livrarias, nas escolas, como acervo de interpretação da nossa identidade

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

“A fala, quem a faz é o povo” – assim é apresentado, nas primeiras de suas quase mil páginas, o Dicionário da Cultura Pampeana Sul-rio-grandense (Fructos do Paiz, Pelotas, RS-2019) – obra que eu chamo aqui simplesmente de “Dicionário do Pampa”, ciente de que por essa redução conceitual eu seria severamente repreendido pelo seu autor, Aldyr Garcia Schlee, de saudosa memória.

Tendo convivido com ele, registrando a sua aventura existencial, posso imaginar o tom desse puxão de orelha. Ouço a voz, vejo o gestual particularíssimo do escritor nascido em Jaguarão, no encontro com o Uruguai, paisagem que carregou sempre consigo, vivendo em Pelotas ou em qualquer lugar de suas vastas fronteiras reais e imaginárias.

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Aldyr precisava de um mundo para expressar-se. Não por acaso, em uma parede da sua biblioteca, ainda deve estar pendurado um grande painel de madeira, com um mapa-múndi desenhado e pintado por ele próprio em profusão de detalhes, tons e relevos. O verso do mapa é um tabuleiro oficial de futebol de botão (mas isso é retalho de outra história, entre tantas de Aldyr: o criador da camisa canarinho, da Seleção Brasileira de Futebol).

Em uma manhã, ele apontava para um traço pontilhado ao leste do mapa da Espanha, ansioso por pintar o traçado definitivo da Catalunha – então convulsiva, nos idos de 2017. Mas logo voltava o dedo para o extremo sul do Rio Grande, o seu epicentro humano. Na apresentação do Dicionário do Pampa, Aldyr Schlee lembra: “foram-se 60 anos, desde 1958, quando eu tinha apenas e só a curiosidade e uma rara e estranha lista de 90 palavras de uso muito jaguarense.”

Em sua reconhecida obra ficcional, fundada entre fronteiras, Schlee correu por fora de si mesmo e foi um abnegado documentarista não apenas da linguagem do Pampa que nos toca, mas também de um bioma, descrevendo – a partir de uma rede de informantes e colaboradores de Brasil, Uruguai e Argentina – um rico acervo de plantas e animais, com amor especial aos pássaros.

Concluiu tudo em agosto de 2018. E nos deixou um pouco mais incompletos em outubro do mesmo ano, quando apampou-se para sempre no seu território mágico, aos 83 anos (de apampar-se: perder-se campo afora, conforme verbete do próprio dicionário). O Dicionário do Pampa teve apenas uma edição limitada. Deveria estar nas livrarias, nas escolas, como acervo de interpretação da nossa identidade; como uma obra de resistência nestes tempos sombrios de um Brasil que despreza e amassa a riqueza e a diversidade das suas línguas.

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