Adriana Antunes: o progresso - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião27/10/2020 | 07h00Atualizada em 27/10/2020 | 07h00

Adriana Antunes: o progresso

 O progresso tem cheiro de dinheiro. Eu prefiro cheiro de mato

Quinta-feira passada pela manhã, logo cedo, chegaram as máquinas e as serras elétricas. Logo logo o canto dos passarinhos foi abafado pelo som do progresso. E digo-lhes, o progresso tem som de tristeza. Em poucas horas não havia mais árvores. Foram postas abaixo, sem o menor pudor. Uma a uma foi tombando, os galhos se agarrando umas às outras, tentando resistir ao desmatamento, rasgando o caule, a seiva, a vida. Poucas coisas são tão tristes quanto o som de uma árvore tombando. Fiz foto para lembrar como era antes, mas não ousei fotografar o resultado. Era uma beleza olhar o verde e vê-lo contrastando com o azul. Uma beleza mesmo. No fim da tarde joões de barro, quero-queros e gaviões disputavam o espaço entre os galhos. Parecia que faziam ali uma aglomeração saudável e possível.

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Confesso minha inveja, para além das asas, a capacidade de cantar, sempre. A rua de paralelepípedos, no inverno, era coberta pelas folhas vermelhas e amarelas, e quando dobrava a esquina para chegar em casa, depois de um dia cansativo, era como se um tapete houvesse sido estendido pela natureza, como forma de recepção afetiva. Sentirei falta disso, confesso. Confesso que já sinto. Não é que não goste de pessoas. Há pessoas lindas e que sei, também sofrem com a morte da natureza, da poesia e da beleza. Pode não parecer, mas vivermos e sobrevivermos depende, e muito, da estética. Conseguir fruir em meio ao caos, aos desafios incessantes, a falta de afeto, a partir da capacidade de ver a beleza nas pequenas coisas que a vida nos apresenta, é fundamental para não adoecermos. Fundamental também para amainar nossas raivas e agressividades. Sim, é comprovado, a estética ajuda a diminuir a violência. 

Há também uma gente que se angustia muito e se sente deslocada em meio a tudo que presenciamos, em todas as esferas, desde a política até a poética. Uma gente que encara a vida e o planeta Terra como casa, como lar. Somos minoria. É, não somos muitos, não. Há dias em que me sinto mais pessimista. A grande maioria nem sabe que está vivo, tanto faz se a terra é redonda ou plana e, há uma outra, que lucra em cima da ignorância alheia. Suspeito que haja uns quantos deste tipo. 

Mas voltando ao corte das árvores da esquina, limparam tudo. Tudo mesmo, até as pedras foram embora. Patrolaram a esquina e a quinta-feira. Já já vão preencher a paisagem pelo cinza da nova construção. Parece que é um novo investimento. O progresso tem cheiro de dinheiro. Eu prefiro cheiro de mato. Nessas horas lembro de Mario Quintana. Desejamos tanto os passarinhos, mas para que eles apareçam é preciso cultivar, antes, um jardim. Mas às vezes cansa, embora feito Amós Oz, sigo dando sempre uma segunda chance ao que já não tem chance alguma.

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