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Opinião13/10/2020 | 14h47Atualizada em 13/10/2020 | 14h47

Adriana Antunes: o novo

Nos acostumamos com o de sempre, às vezes bom, às vezes muito ruim, e temos uma dificuldade imensa de nos pensar e sentir vivendo de outro modo

Quantas vezes deixamos de viver algo novo porque não queremos experimentar. Temos medo de não gostar do gosto, de sair da nossa zona de conforto, do que já é conhecido e familiar. Mesmo que já estejamos enjoados das mesmas coisas, mesmo assim, evitamos o novo, o desconhecido. E deixamos de aprender algo sobre nós mesmos. Nos acostumamos com o de sempre, às vezes bom, às vezes muito ruim, e temos uma dificuldade imensa de nos pensar e sentir vivendo de outro modo. Alguns de nós até sonham, desejam, mas na hora de realmente mudar, recuam. É aquela viagem que planejamos há anos, aquele curso de arte que sempre namoramos, aquele pedaço de pizza de outro sabor que sempre queremos provar, mas acabamos comprando a mesma porque sabemos que não vamos nos decepcionar. O igual guarda armadilhas. Nos enganamos, profundamente, ao imaginar que é possível levar uma vida sem surpresas, sustos, frustrações, decepções e descobertas. Quando evitamos o novo, não apenas criamos uma fantasia de que garantimos que não iremos nos surpreender negativamente, mas perdemos a grande chance de nos perceber diferentes também. E se, de repente, descobrimos que muito daquilo que evitamos nos faz ter mais prazer do que o já conhecido? E se nos deparamos com um EU completamente diferente, um estranho, quando decidimos nos permitir sentir mais leveza e menos cobranças? E se descobrimos que não só merecemos ser mais felizes, como podemos ser? Mas para isso é preciso deixar velhas feridas cicatrizarem, não jogar mais para o corpo a dor que incapacita a alma, parar de adoecer como modo de ganhar atenção e carinho, cortar o cabelo, usar mais saia e independente de ser homem ou mulher. Experimentar outros modos de viver não faz de nós melhor ou pior, não mexe com nossa sexualidade ou fé, apenas nos aponta novos possíveis caminhos de se tentar viver minimamente bem dentro de si mesmo. Às vezes nos apegamos em demasia em padrões. Se a roupa não for aquela, se o carro não for este, se o peso não aquele, se a conversa não seguir por este rumo, condições demais para se viver.

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Não há uma receita de como podemos nos experimentar, mas podemos começar por aquilo que está próximo. Para um coração ferido, chore até desencharcar. Para a tristeza do dia a dia, um varal para quarar autogentileza. Para gostos muito herméticos, couve-flor com molho de castanha de caju numa cama de cogumelos salteados com alho. Para o cansaço, sementes das flores da estação. Para a dureza da vida, gratidão singela pelas bênçãos recebidas até aqui. Para lidar com pessoas chatas, dizer a elas o quanto são chatas, talvez elas não saibam. Para um amor que chega ao fim, aceitar o fim. Para o sonho engavetado, limpar a cabeça das certezas. Ouça uma canção diferente, reencontre velhos amigos e perceba como o tempo passou, permita que o olhar seja mais macio, experimente aquele vinho, aquele outro pedaço de pizza, use uma roupa colorida, raspe a cabeça, use saias, coma sem culpa, ame sem medo, só por hoje, experimente.

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