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Opinião20/10/2020 | 07h00Atualizada em 20/10/2020 | 07h00

Adriana Antunes: a pandemia acabou e não fomos avisados

 A nossa atitude ou a falta dela revela o nosso caráter

Domingo, depois de sete meses em casa por conta da pandemia, saímos para caminhar. O dia estava lindo e suarento. Passamos protetor solar, colocamos roupas confortáveis e nossas máscaras. Logo na esquina o primeiro indício do que se tornaria uma nova ordem: ninguém estava usando máscaras. Andamos por uma hora e meia por quase seis quilômetros, passamos por ruas movimentadas, parques, áreas verdes, pátios de casa e estacionamentos de postos de gasolina. O assombramento só aumentava. A pandemia acabou e não fomos avisados, essa era a sensação. Sim, eu também estou cansada de ter de ficar em casa, trabalhar de casa, não encontrar amigos, usar máscara para sair, ter as mãos ressecadas por causa do álcool gel, ver aumentar a conta da água por lavar roupas a cada saída, mas daí simplesmente negar a situação ou agir como se tudo já tivesse terminado, me fez sentir uma certa raiva e indignação.

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Concordo, tudo na vida é uma questão de escolha. Até mesmo quando decidimos não escolher, fizemos uma escolha. A nossa atitude ou a falta dela revela o nosso caráter. E o caráter se revela seja por consciência da situação, ignorância ou mediocridade. Somos o que somos e as nossas atitudes nos revelam, mesmo que façamos um grande esforço para disfarçar. Assim como nos revelamos nos atos falhos, é na espontaneidade que somos honestos. Então, depois de meses de mortes, o susto diminui, a vida aos poucos retorna a sua (falsa) normalidade, o retorno da segunda onda da pandemia na Europa soa como algo muito distante, o noticiário caiu na banalidade e é quase verão. Afinal, só morre quem tem de morrer, não é? Estamos voltando a nos acomodar com o contexto na falsa impressão de que está tudo bem.

A mediocridade nos abraça de modo tão confortável. Ela é segura, nos salva das agruras e angústias de encarar a realidade. Sim, eu concordo, ela traz uma espécie de paz, afinal podemos viver o dia a dia sem o peso de ter de sustentar uma atitude ética e comprometida. Eu também sinto falta de uma aglomeração. Juntar as pessoas queridas, tomar um chimarrão, rir, falar de política, ler poesia, ouvir uma boa música. Na nossa caminha domingueira vi pessoas fazendo tudo isso, pareciam tão felizes. Sim, a mediocridade é uma espécie de entorpecente aceito socialmente, ele nos entorpece, nos destempera. Eles sorriam, riam e estavam colados, lado a lado. As cadeiras de praia formavam um cordão entre os carros e as pessoas. Todo mundo juntinho. A alegria fácil é conquista da sociedade medíocre que vivemos. O medíocre não tem pelo que chorar, ele não sofre as perdas. Vivemos uma sociedade pausterizada. E corremos o sério risco de acreditar que isso é o certo.

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