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Opinião07/09/2020 | 07h00Atualizada em 07/09/2020 | 07h00

Sandra Cecília Peradelles: ansiedade, saudade do futuro

Assim tenho seguido: dias de brisa, dias de furacão

Sandra Cecília Peradelles
Sandra Cecília Peradelles

comunicaperadelles@gmail.com

Tempos pandêmicos são patologicamente estranhos, adoecem o próprio tempo. Descompassa-o. Presente, passado e futuro se emaranham. Não há o que passou que nos ensine a superar o hoje. O futuro se encontra suspenso na incerteza do que virá. E o presente vai embrulhado pra viagem, uma viagem de foguete que só vai adiante, seguindo até o combustível acabar. 

A minha gasolina aqui jaz, confesso. Tenho ido pra frente sem empurrar, contando com a sorte de um dia de vento. Assim tenho seguido: dias de brisa, dias de furacão. Amo programar a vida, fazer planos, organizar os passos, enxergar o que vem. Deve ser, inclusive, por isso que pequenina eu habitava mais as copas das árvores do que o chão. Subia alto para enxergar o longe.

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Meses atrás, quando o caos fez morada em nós, me vi de pés fincados no solo, criando raiz profunda. Perdida no agora, esse momento que nunca tive muita capacidade de compreender. Sou especialista no que está por vir. A assertividade do tempo que chegará foi arrancada de mim por uma doença que atinge os pulmões e eu sem ter contraído-a, por vezes me peguei sem ar. 

Gente como eu tem saudade do futuro, daquilo que ainda não viveu. Parece poético, mas não é. Juro que não. Passei a vida fora do compasso do tempo, vivendo o hoje por causa do amanhã. Nunca respeitei a ordem natural das coisas: o que foi, o que é, o que será. Misturei tudo cartesianamente, dada minha personalidade um tanto racional, mirei com cautela o alvo, eu era a flecha e o atirador. Fui! Rompendo barreiras, construindo pontes. Acertei o alvo quase na totalidade das vezes. Sorte, acho. 

Viver fora da naturalidade do passar pode ser bem arriscado. E foi! Senti no cotidiano muitas vezes a força do não estar. Hematomas despercebidos marcando minha pele, me contaram que eu devia prestar atenção no que estava vivendo ali, no presente. Mas eu marchava adiante sem freio, colecionando esquecimentos, carregando uma agonia palpitante no peito. 

Descobri que essa sensação tem nome: ansiedade. Convivi com ela por longos anos, considerava-a normal. Um dia descobri que não. Fui encurralada pelo excesso de futuro e me vi paralisada. Aceitei a paralisia, aprendi a contar minha pulsação, reaprendi a respirar, procurei ajuda, fiz terapia. 

Acontece que tempos pandêmicos chegaram, nos trancando em casa, nos fazendo olhar para o mais profundo da nossa falta de controle. Mirando a vizinhança, a enxerguei ali.  A ansiedade, que um dia foi minha companheira, habitava quase todos os lares e, por vezes, bateu à minha porta. Eu não abri, disse a ela, esgoelando, que em mim ela não faria mais morada. 

Para isso, me obriguei a olhar pra minha realidade, apreciar minha vida, cada momento. Mergulhei nas memórias de agonia para chegar à superfície ainda com ar nos pulmões. Cá estou, viva! Marchando dia por dia, chorando minhas derrotas e comemorando minhas vitórias. Eu nunca pensei que poderia ser tão prazeroso viver o hoje. Mas como eu poderia saber, não é? Viver se aprende vivendo. 

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