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Opinião11/09/2020 | 12h49Atualizada em 11/09/2020 | 12h49

Pedro Guerra: mordendo a língua

Olhei para o espelho e tentei convencer a mim mesmo de que esse era um daqueles sinais implícitos que a vida nos dá para visualizar oportunidades e descobrir coisas novas

Pedro Guerra: mordendo a língua Antonio Giacomin / Divulgação/Divulgação
Foto: Antonio Giacomin / Divulgação / Divulgação

Sou um fã assumido de cheiros, seja qual for. Gosto do cheiro de incenso, de casa limpa, de velas queimando em silêncio, de gasolina enquanto abasteço o carro, de fósforo recém riscado, e obviamente de perfume. Quanto ao último, sempre fiz questão de honrar a minha indecisão e estou toda hora variando: perfume doce, amadeirado, cítrico ou com um cheiro de absolutamente nada mas que a vendedora explicou com tanto cuidado que pareceu ser o melhor do mundo. Nunca me limitei a um específico porque acredito que a vida é curta demais para a gente ter sempre o mesmo cheiro. 

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Desde que eu passei a escolher os meus próprios perfumes (isto é, depois que a nossa mãe para de passar aquele óleo mamãe & bebê da tampinha verde depois do banho), cultivei o costume de trocar de perfume de acordo com o meu humor. Mas recentemente tive que entender que nem todo mundo pensa assim quando uma amiga me chamou desesperada, como se uma grande tragédia tivesse acontecido, e o resumo da história era que o perfume favorito dela estava entrando em extinção. 

Admito que o drama não fez sentido para mim naquele momento. Afinal, a resolução me parecia óbvia, já que às vezes a vida se encarrega de nos mandar alguns sinais implícitos nas situações mais aleatórias: oras, bastava escolher um perfume novo!

Mas não. 

Tinha que ser aquele. 

Ela bateu o pé e disse que o usava há anos e que gostava demais daquele cheiro. Quando soube que ele deixaria de ser fabricado, surgiu a revolta. Foi como perder uma parte de si, eu acho... Vai entender. Eu bem que tentei argumentar com esse papo de oportunidade para expandir os nossos gostos e descobrir coisas novas, mas não obtive muito resultado. De qualquer forma, ela teve que economizar até a última gota do frasco. 

Hoje, passados alguns meses desde o episódio, eu entendo que toda perda gera um certo tipo de luto, seja ele superficial ou daqueles tão profundos que parecem nos corroer. 

E eu só enxerguei isso porque um dos perfumes que eu mais gostava deixou de ser fabricado. 

Sim, mordi a minha própria língua. Logo eu, o grande defensor e representante dos cheiros variados e da balela de que 90 anos (com sorte) é pouco tempo para sustentar no pescoço sempre o mesmo perfume, estava na loja discutindo com o vendedor sobre a extinção do meu produto favorito (porque sempre tem um que a gente gosta mais, convenhamos) – como se a culpa fosse dele. 

Tive que aceitar. De volta para casa, olhei para o espelho e tentei convencer a mim mesmo de que esse era um daqueles sinais implícitos que a vida nos dá para visualizar oportunidades e descobrir coisas novas. 

O fim da história? Revirei os olhos, bufei e fui para o site da perfumaria abrir uma reclamação. Onde já se viu?!

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