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Opinião04/09/2020 | 13h00Atualizada em 04/09/2020 | 13h40

Nivaldo Pereira: quem vive sente dor

Embora sejamos uma espécie ousada e intrépida, que mesmo não sendo a mais forte do planeta conseguiu pela especial inteligência fazer-se soberana, ainda assim sabemos que nossa jornada tem prazo de validade

Nivaldo Pereira: quem vive sente dor Charles Segat/
Foto: Charles Segat
Nivaldo Pereira
Nivaldo Pereira

nivaldope@uol.com.br

Sabe aqueles dias em que você já acorda cansado? Sair da cama é um sacrifício. O tempo passa, a culpa se instala. Aí você, que se considera muito responsável, força o torpor do desânimo, aciona um piloto automático e se entrega aos ritos do cotidiano. Mas, a toda hora, uma voz vinda de dentro vai informar: você está triste, certamente melancólico, talvez até deprimido. Claro, esse não é o seu normal, você não é assim. Ao ver outro na mesma situação, você sempre se apressou em tentar puxá-lo para cima: vamos, reaja, não se entregue, tudo isso vai passar. Só que agora essa energia lhe falta – ah, casa de ferreiro, espeto de pau! E você amarga mais esse fracasso de não conseguir praticar o que prega. Nessa hora, é quando você sente fisgar na alma a ferida maior da condição humana: em algum nível, somos todos vulneráveis.

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A morte está aí para nos lembrar disso. Embora sejamos uma espécie ousada e intrépida, que mesmo não sendo a mais forte do planeta conseguiu pela especial inteligência fazer-se soberana, ainda assim sabemos que nossa jornada tem prazo de validade. Sabemos que nosso corpo é frágil. Sabemos que sua sustentação de nossas vontades segue um inexorável processo de degeneração. Cedo ou tarde, pifaremos de vez. Também somos dotados de emoções, um reino misterioso do qual emergem nossos estímulos de prazer, alegria e encantamento, mas – oh, dor! – também desalento, medo e desespero. De repente, sem motivo aparente, podemos nos perceber afogados em trevas e angústias, como você, agora. É quando beijamos a lona do ringue, na dor literal ou sob esse estado emocional sombrio que agora lhe rouba o horizonte.

Para lidar com essas fragilidades do corpo e da alma, os humanos buscam deuses e religiões; articulam o pensamento em mil filosofias ou ideologias; inventam remédios de toda sorte. Ok, tudo é válido. Mas também criam mecanismos de negação ou compensação. Ora, xô com essa papo de doença e morte! A época atual mostra do que somos capazes. Vivemos mais, enganamos o tempo, somos os tais. Dia virá em que derrotaremos a morte. Aí a dita cuja passa por perto, e a dor gera o grito e a súplica. Amigo, a ferida da condição humana pode tardar, mas sempre irá sangrar. Estar vivo é estar sujeito à dor, física ou emocional. Não tem como escapar disso. E até mesmo os humanos mais iluminados já tiveram seu dia de jogar a toalha e indagar aos céus: pai, por que me abandonaste?

Então, você que hoje acordou pesado; você que não encontra respostas dentro de si para o que sente; você que está exausto e até se culpa por isso: amigo, amiga, por alguma razão, você acessou sua humana ferida. É quando vai precisar dos outros. Aceitar esse nocaute é desarmar-se, é abandonar qualquer arrogância e é conectar-se com todos os demais vulneráveis seres vivos neste planeta. É ver a dor e o desconforto como aprendizados.

Na linguagem simbólica da astrologia, há um asteroide chamado Quíron, associado à ferida do existir e ao curador ferido. Também há o planeta Netuno, ao qual se relacionam esses estados de melancolia e prostração. Tais energias nos tiram da condição individual e egoísta e mostram que não controlamos tudo. Se não sentirmos dor, não nos importaremos com a dor alheia. E sem compaixão para com os demais, a noção de humanidade fracassa. Assim, sua dor é mestra, amigo. Escute-a. E mude, por que você, ainda que ferido, está vivo. É certo que outro dia virá, com outra luz – e eis outra regra imutável da vida.

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