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Opinião04/09/2020 | 07h00Atualizada em 04/09/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: geriatria da alma

Vida só assim o é quando existe autonomia e consequente dignidade

Profissionais da medicina têm se dedicado, com renovado afinco, à erradicação dos eventuais malefícios que atacam o corpo na velhice. Já aos vinte anos, muitas pessoas iniciam tratamentos preventivos. Serão os beneficiários de vantagens só destinadas a quem reserva precocemente tempo e dinheiro, indo além da mera especulação do que nos espera mais adiante. Deve-se evitar ver nisto algo prematuro, pois sinaliza a vontade de retardar o máximo possível a deterioração física. Vida só assim o é quando existe autonomia e consequente dignidade. É admirável o esforço de minimizar o enferrujamento de uma máquina, ampliando o desempenho de seu papel. Ninguém seria tolo o suficiente para fazer a apologia da falha, do desgaste, incensando o fim. Talvez minha reflexão se torne mais severa por constatar o fato de estarmos nos tornando obcecados pela juventude. Pelo que refulge, como se a experiência fosse um apêndice a ser descartado. Certo exagero está nos levando a uma espécie de arianismo contemporâneo: só é louvado quem se encontra em estado de brotação - perfeito, perfeito. À parte isso, junto-me ao coro dos alegres com cada descoberta nesta área, expandindo o gosto por estender admiravelmente a fascinante experiência neste planeta.

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No entanto, seria interessante se essas pesquisas caminhassem juntas com o refinamento e a conservação do nosso interior. Dê o nome que lhe parecer mais simpático: alma, consciência, personalidade. Mas o desejo de melhoria parece seguir sempre pela mesma senda, ignorando sermos mais complexos do que os órgãos que nos compõem. E para poder usufruir das benesses de uma época de movimentos reduzidos e vontade comumente encarcerada, precisamos começar um trabalho de observação do risco de atrofia dentro de nós. Talvez uma minoria seja inclinada ao mal, mas o bem certamente necessita ser alimentado constantemente, sob o risco de se ver engolido pela tendência tão humana de dar vazão ao egoísmo. À luz da psicologia, esse exaustivo trabalho deve se dar a partir da infância, se não quisermos nos surpreender, mais tarde, com os membros encarquilhados e a mente idem. Há uma tendência natural para o desvio do caminho correto e o reforço dessa inclinação se manifesta desde a tenra idade. Quem é legal, só acentuará esta característica. Os chatos serão chatos com PhD. Tudo se torna mais evidente, para alegria ou tortura dos responsáveis por nos cuidar lá no fim.

Zelemos pela preservação física, mas não só isso. Treinar a paciência, a tolerância e a generosidade desde bem cedo é garantia de nossa presença ser menos incômoda lá adiante. Nada cai do céu, como um maná. Busquemos por doutores. E por mestres espirituais para suportar as perdas que se darão. Nenhum início é precoce, pois o período do fulgor dura um átimo de segundo.

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