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Opinião16/09/2020 | 07h00Atualizada em 16/09/2020 | 07h00

Ciro Fabres: estivemos por um triz

Crise aguda de nostalgia oitentista? Pode ser, mas esses são traços indesmentíveis da história

E dizer que estivemos por um triz pro dia nascer feliz. Foi nos Anos 80. Este era o diagnóstico de Cazuza e da banda Barão Vermelho, que cantaram Pro Dia Nascer Feliz em janeiro de 85 no Rock’inRio em clima de altíssima voltagem e interação com um público que não tinha celulares para fazer selfies e vivia a música intensamente. Foi na mesma noite em que Tancredo Neves era eleito presidente pelo Colégio Eleitoral. Claro que a música do Barão, como tantas outras, tinha relação visceral com o momento político, tanto que, emblematicamente, os militares saem do poder no dia do show no Rock’inRio. Mas Pro Dia Nascer Feliz adquiria caráter universal, expandia-se misturando a realidade política com a vida, os sonhos e os anseios de cada um. Tudo junto ao mesmo tempo.

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Era um tempo contagiante e caleidoscópico. Caleidoscópio é um equipamento ótico que permite explosões visuais variadas a cada movimento. Caleidoscópicas eram as expressões daquele tempo, de uma diversidade incontrolável, em que se destampava uma panela de pressão, e as expressões jorravam de múltiplas formas. Estávamos, de fato, por um triz, mas não vingou. O “triz”, uma distância de quase nada a ser transposta pro dia nascer feliz, não rolou. Foi se alargando, alargando, hoje é um oceano.

Crise aguda de nostalgia oitentista? Pode ser, mas esses são traços indesmentíveis da história. Hoje os dias estão longe de nascerem felizes. Afinal, pra início de descrição de cenário, estamos em uma pandemia. E se uma crise oferece combustível para inovações, superações e reinvenções, não dá para afirmar que “vamos sair melhores”, tese popular da pandemia. Melhoramos na esfera da tecnologia, das funcionalidades e operacionalidades. É bom. Mas ainda não aprendemos a valorizar a vida, as pessoas.  No conteúdo, portanto, esquece. Nada feito.

As imagens recentes das praias e bares cheios de gente e festas clandestinas são um atestado límpido. Claro que a sanidade mental vai se tornando prejudicada com as restrições e o passar dos dias. As válvulas de escape e o contato com a natureza são importantes e podem existir. Algumas concessões, inclusive de atividades econômicas, tudo bem, mas sem aglomerações. Porém, o momento impede, em sinal de respeito, exorbitâncias como praias cheias, porque o contágio segue lá em cima. Ignorar essa evidência é banalizar a pandemia, e banalizar a pandemia é banalizar a vida das pessoas, e vida das pessoas deveria ser o que mais importa. Deveria. 

O dia nascerá feliz com pessoas, todas elas, seguras, respeitadas e a vida valorizada. Deveria ser uma bússola, um ideal, que perdemos em algum lugar do caminho. E foi assim que o “triz” virou oceano.

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