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Opinião10/09/2020 | 14h36Atualizada em 10/09/2020 | 14h36

André Costantin: o Inferno

A danação é que tanto flertamos com o imaginário do Inferno que ele parece ter deixado de ser apenas uma alegoria da nossa condição humana

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

 O Inferno de Dante Alighieri é uma prova de que o homem (ou mulher) feliz não é um bom narrador. Só uma alma atormentada viajaria a tais profundezas. Uma pessoa com o carimbo de feliz, além de quase nunca dar em boa história, talvez nem seja humana. Ah, sorrisos fáceis demais! – quando a felicidade é doce autoengano ou a eterna idealização do Outro.

Esse Dante de nariz adunco, cujo busto de mármore dorme na praça homônima de Caxias, lá pelos 35 anos resolveu viajar aos três reinos mágicos da iconografia cristã-católica. “Ao meio caminho da vida, encontrei-me em uma selva escura: que a reta via estava perdida” (ó Dante, perdão, arrisco minha versão, por não confiar na tradução pela qual vaguei muitas noites contigo). A velha questão: tradutor, traidor.

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Dante, cidadão florentino da idade média (século XIII), tem como guia o poeta latino Virgílio. Eles começam seu périplo pelo festerê do Inferno, cheio de almas penitentes. A peregrinação literária de Dante era a Comédia; depois, no século XVI, ganhou o cartaz de A Divina Comédia. Mais do que servir de base da língua italiana moderna, a obra e a cosmologia dantescas conformaram uma visão mais presente e ameaçadora – e por isso mais humanamente sedutora – do Inferno, em prejuízo do Purgatório e do Paraíso.

Assim, pela metade da minha via escura, andei pela leitura da Comédia, na sua forma poética: surfei pelos muitos círculos, valas e giros do Inferno. Mas nunca consegui ascender à leitura do Paraíso, a ponto de ver o semblante de Beatriz, musa do poeta. Com Dante, encontrava nas camadas mais à superfície os tipos comuns: luxuriosos, adivinhos, gastadores, blasfêmios. Foi quando desconfiei que para lá iria também.

Aqui na paróquia, recorremos à cor local: a cena da criança levada para um tour educativo pela igreja de São de Pelegrino: olhos arregalados para o teto, onde descortina-se a suruba do Juízo Final de Aldo Locatelli – corpos nus chamuscados pelo fogo de demônios voluptuosos. O padre no canto, satisfeito, cheiro da tinta fresca. E o Ibope do Inferno, sempre lá em cima. 

A danação é que tanto flertamos com o imaginário do Inferno que ele parece ter deixado de ser apenas uma alegoria da nossa condição humana. Distraídos, descemos às valas mais profundas, onde estão os traidores de toda ordem, inclusive os enganadores da pátria, com seus milhões de smartfhones e memórias inválidas. E, logo ali, no círculo dos palácios, a triste figura com seu riso sempre muito fácil, empoderado como se o diabo fosse.

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