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Opinião03/09/2020 | 07h00Atualizada em 03/09/2020 | 07h00

André Costantin: Ciência e rebeldia

Para eles, a vacina é uma droga do globalismo e logo será pano pra manga para a única guerra que interessa

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

“A ciência é uma aliança de espíritos livres em todas as culturas, capaz de enfrentar a tirania local que cada uma delas ergue contra seus filhos” – assim é apresentado O cientista como rebelde, ensaio de Freeman Dyson, matemático e físico britânico, publicado no Brasil no ano de 2009 pela Revista Serrote (Instituto Moreira Sales). Premonitório e atualíssimo, nesse ano da graça de 2020.

Nestes dias foi dada a largada para mais uma retórica oficial criminosa dos vândalos que nos governam – desta vez, enlameando o tema da vacina da covid-19, cuja evolução está em curso. O Brasil ainda empilha milhares de vítimas, seus filhos esquecidos. Mas os asnos palacianos já reproduzem o discurso do ídolo Donald Trump, jogando a questão da vacina no esgoto raso das ideias fixas. Para eles, a vacina é uma droga do globalismo e logo será pano pra manga para a única guerra que interessa: a tumulto das redes para manter seus rebanhos.

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Freeman Dyson participa da ideia de que não existe uma visão científica única, assim como não há uma visão poética única: “A ciência é um mosaico de visões parciais e conflitantes. Mas há um elemento comum nessas visões. É a rebeldia contra as restrições impostas pela cultura local predominante, seja ela ocidental ou oriental”. Aqui, além da “cultura predominante”, há um poder tirano e simplista que repele a ciência, feita da complexidade de visões e pensamentos.

Arte e ciência são rebeldes, giram na mesma vibração. O ensaísta cita um matemático e astrônomo árabe, Omar Khayyam, que fez da ciência uma rebeldia contra as restrições intelectuais do islamismo. Rebeldia em versos: E essa gamela invertida que eles chamam de céu, / Sob a qual, engaiolados e rastejantes, vivemos e morremos, / Não erga suas mãos a Ela pedindo ajuda – pois Ela / Vagueia tão impotente quanto eu e você.

Se essa gente histérica, dura e de espírito messiânico, que raptou a imatura democracia brasileira, pudesse compreender algo da ciência e da arte, seriam-lhes libertadores estes outros versos de The Double Axe (O machado duplo - Robinson Jeffers), resgatados por Dyson:

Venham pequenos. / Vocês não valem mais que as raposas e os lobinhos amarelos, / mesmo assim eu lhes darei sabedoria. / Oh! Futuras crianças: / Dificuldades se aproximam; o mundo do tempo presente / Está à beira da catástrofe; mas você nascerá e viverá / Depois, também um dia virá quando a Terra / Vai se coçar e sorrir e arrancar da própria pele a humanidade: / Mas você nascerá antes disso.

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