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Opinião15/09/2020 | 07h00Atualizada em 15/09/2020 | 07h00

Adriana Antunes: narrar-se

É preciso vivenciar o dito, outra vez e mais outra e outra vez ainda e quantas vezes forem necessárias até que possamos compreender o gatilho de nossas ações

A prática da psicanálise é muito parecida com escrever. Toda vez que um paciente cruza a porta do consultório uma sensação de angústia percorre o corpo. O paciente vem em busca de cura para sua dor psíquica. O psicanalista o acolhe sem saber se poderá ajudar a cicatrizar suas feridas tão abertas. Não falemos em cura, porque curar(se) é de uma ordem tão profunda e abstrata, às vezes tão idealizada, que merece um texto somente para ela. Clarice Lispector diz em seu texto intitulado “submissão ao processo” que o escrever é feito de erros – a maioria essenciais, assim como receber os pacientes. Para escrever um texto é preciso que um acordo afetivo seja estabelecido. Escrever é mexer nas feridas, é dar forma aos sentimentos, contorno aos versos. É um reajeitar as vírgulas, abrir nossos parágrafos, reduzir uma frase muito longa, enxertar citações. É preciso que se tenha em mente que uma boa história é sempre atravessada por muitas outras histórias e nem sempre elas estão explícitas. Com o paciente algo parecido se processa. Precisamos estar com e jamais apesar de. Toda vez que um paciente se deita no divã (mesmo que seja um divã metafísico por causa da pandemia e dos atendimentos online) lembro de Manoel de Barros, pois ali inicia sua desbiografia. Conta-me do quanto já foi musgo, húmus, passarinho de asa quebrada, talo de gerânio machucado, minhoca na calçada, uma poça de sol no jardim, criança ferida, adulto solitário, noites de insônia, dores no corpo, pensamentos repetitivos, sensação de morte, medo. Conta-me também dos desejos, sonhos, gostos diferentes, fantasias, curiosidade crianceira. Suas fábulas particulares e assim, recria o real no irreal.

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Ali, naquele ínterim de tempo pode voltar a ser criança e aos poucos (re)lembra e (re)inventa memórias e prazeres. Aprendo muito ouvindo-os falar sem medo de olhar para os cacos em que às vezes se encontram, para os destroços das discussões do dia anterior, e para a coragem de enfrentar a tempestade. Para ajudar nesse processo conservo em mim a disponibilidade amorosa de agarrar o mais arcaico no outro em mim mesma. Falamos sobre a importância de guarda-chuvas, da paciência tão necessária para juntar pedaços e cacos espalhados pela vida, tocamos no machucado e se doer demais, respiramos e continuamos depois. A psicanálise ajuda a ressignificar.

Assim como todo texto guarda seus mistérios e, como dizia meu querido professor Flávio Loureiro Chaves, é preciso humildade para ouvir o que o texto nos quer dizer, carrego isso para a prática da clínica. As palavras nos ajudam a nos historiarmos. Por meio da narrativa, nos narramos. É por meio destes breves encontros semanais que invariavelmente vamos, aos poucos, nos transformando. É preciso vivenciar o dito, outra vez e mais outra e outra vez ainda e quantas vezes forem necessárias até que possamos compreender o gatilho de nossas ações. O reconhecimento disso se torna o processo pelo qual eu me torno outro diferente do que fui, e assim, deixo de ser capaz de retornar ao que eu era. Reconhecer é retornar a si mesmo.

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