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Opinião21/08/2020 | 12h50Atualizada em 21/08/2020 | 16h17

Tríssia Ordovás Sartori: a chance de ver extremos e possibilidades em quase tudo

Sigo caminhando, aprendendo a lidar com o imponderável e realizando pequenas grandes revoluções no meu microcosmo

Tríssia Ordovás Sartori: a chance de ver extremos e possibilidades em quase tudo Fábio Panone Lopes/Divulgação
Foto: Fábio Panone Lopes / Divulgação
Trissia Ordovás Sartori

trissia.ordovas@pioneiro.com

Do calorzinho do início da semana à neve dos últimos dias podemos observar que, às vezes, nosso cotidiano nos brinda (sou uma otimista) com extremos. Recebo de uma amiga uma brincadeira contemporânea sobre uma versão bem particular do amor fati – o amor ao destino, presente na ideia do eterno retorno de Nietzsche – e converso com outra que revela ter medo de morrer sozinha, mesmo sem ter completado 40 anos. 

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Tento ler sobre a história horrível da menina de 10 anos estuprada pelo tio, mas os comentários em torno do assunto quase me fazem perder a fé na humanidade. Encerro, definitivamente, um ciclo depois de muitos anos e, à medida em que celebro, recebo a confissão de um amigo que foi processado injustamente por uma pessoa em quem confiou durante toda a vida.

Descubro, por acaso, uma história engraçada que tem relação com meu passado e fico pensando de que maneira as pessoas guardam lembranças nossas. Não somos os mesmos do que há 20 anos, mas a percepção de algumas pessoas a nosso respeito está congelada naquele tempo, em alguma ação ou interação que marcou essa troca. Penso em quão superficiais podem ser as impressões sobre nós e vice-versa. Por outro lado, é interessante saber que permanecemos, mesmo mudando.

Reafirmo quão incômoda pode ser uma história de assédio, anos depois de ter acontecido e como o assediador não costuma se constranger com quase nada. Confirmo que cozinhar para os outros é um ato de amor. Pulo de uma reunião a outra por vídeo, com o mesmo cenário e na mesma cadeira, sem muito tempo de olhar pela janela, mas aí uma joaninha aparece do nada e eu sempre penso que isso é um sinal de sorte. Acabo me apegando aos detalhes.

Dou uma fugida para aproveitar o frio com sol, compro astromélias vermelhas e descubro que existe uma concorrência desleal entre os vendedores de flores. Por trás das cores dos buquês e das máscaras, escondem-se histórias de superação. Vejo a senhora passeando diariamente com seus cães, imprimindo uma rotina que não pode ser quebrada, mesmo em dias de chuva, de frio ou calor extremos. Ouço que as pessoas estão com saudade: de um show, de um boteco, dos amigos, dos abraços. Vejo declarações de amor por escrito ou em áudio, com pouco olho no olho, mas com muita vontade e sinceridade. 

Observo pessoas que já não eram tão boas piorarem. Vejo solidariedade brotando de quem se considerava meio insensível. Vejo gente perdendo o emprego e também gente se reinventando. Gente que coloca poesia em tudo o que faz e gente que só faz reclamando e por obrigação.

Vejo extremos e possibilidades em quase tudo. Eu, que me julgava tão estoica – a corrente filosófica que diz que, não controlamos os eventos externos, não podemos depender deles – nos últimos meses, percebi que não consigo aceitar tudo tão tranquilamente assim. Sigo, no entanto, caminhando, aprendendo a lidar com o imponderável e realizando pequenas grandes revoluções no meu microcosmo. Aproveitando ou não, sei que o tempo vai passar da mesma forma. Se ele ganhar um quê de sentido ou reflexão, talvez essa passagem seja bem mais leve e divertida, apesar das faltas e dos excessos que fogem do nosso entendimento.

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