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Opinião31/08/2020 | 15h28Atualizada em 31/08/2020 | 15h28

Sandra Cecília Peradelles: ser mulher, transexual

Apreciando Marina, marejo os olhos ao lembrar que o Brasil é o país que mais mata trans e travestis no mundo

Sandra Cecília Peradelles
Sandra Cecília Peradelles

comunicaperadelles@gmail.com

Marina me diz com olhos de menina que ser mulher tem a ver com acolhimento, partilha e luta. Me fala de dores e autoconhecimento com tanta doçura que me faz crer que seja fácil ser quem se é. Discursa sobre empatia e acessibilidade. Paro, olho fixamente Marina, devoro cada palavra sua como quem se farta de um banquete de realidade.

Marina é mulher como eu, envolta em nuances rasas e profundas. Mulher-amor, mulher-luta, mulher-beleza, mulher-história, mulher-mulher. Gosto de olhar pra ela e me ver um pouquinho melhor do que sou. É que ela tem esse dom, de fazer a gente se sentir valiosa. Quando fala de si, sempre fala de nós. Eu fico feliz ao lado dela. Todos ficam. É nítido! 

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Marina tem mãos de criação, deve ser por isso que ela gera tanta beleza por onde passa. É artista, pinta o mundo, e pinta telas, papelão, paredes e até peles. De fato, ela marca a gente. Quando penso que a vida me fez viver na mesma época dela, me sinto lisonjeada. 

Marina sempre ri e desfila. Quando a vejo saindo por aí, belíssima e resplandecente, mal lembro que o mundo a chicoteia incansavelmente. Porque sim, Marina é mulher como eu, mas como todos temos nossas diferenças, a maior diferença que existe entre nós duas é que eu sou cisgênero e ela é transexual. 

Sim, eu já reclamei de ser mulher, já reneguei meu sexo, meu gênero. Tive que aprender a ser mulher. Enquanto isso, Marina entende sua humanidade, vangloria a mulher que a habita, a louva. Em seu louvor, ergue aos céus todas nós. 

Apreciando Marina, marejo os olhos ao lembrar que o Brasil é o país que mais mata trans e travestis no mundo. Um nó me prende a respiração. É medo! Fico apavorada de pensar que podemos perdê-la. Não contenho o choro ao saber que tantas Marinas daqui partiram. 

Outro dado importante para entender o Brasil e a vida de Marina é que somos o país que mais busca por vídeos de travestis e transexuais em sites pornográficos. Eis a nossa hipocrisia escancarada. Daí eu fico brava, Marina não é fetiche, Marina é humana, em demasia.

Marina tem um sonho, assim como eu, mas até pra sonhar ela é nobre. Não vislumbra grandes coisas materiais, o que ela quer pra si, quer para todo o universo feminino: segurança, vida longa e plena. 

Tocada profundamente com sua personalidade, arte e luta, a questiono diretamente: o que é ser mulher pra você, Marina? Ela responde de forma tão direta que parece uma flecha atravessando o tempo, acertando em cheio uma nuvem que passa. “Ser mulher para mim é estar em paz com o meu interior, com a minha identidade, para que assim eu me sinta motivada a lutar por um mundo com mais oportunidades para nós, um mundo justo e respeitoso para as próximas gerações de meninas e mulheres cis e trans.”

Marina me impactou, posso viver cem anos ou cem vidas, sempre carregarei comigo que pra ser mulher, cada dia preciso ser mais como ela.

*** A cada tempo, o leitor encontrará nesta coluna, textos baseados em entrevistas com representantes das múltiplas possibilidades de ser mulher, editadas crônica e poeticamente por esta colunista.

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