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Opinião17/08/2020 | 13h44Atualizada em 17/08/2020 | 13h44

Sandra Cecília Peradelles: mães também precisam de colo

Mulher-mãe, eu sei que não está fácil sobreviver à tríade trabalho-casa-maternidade

Sandra Cecília Peradelles
Sandra Cecília Peradelles

comunicaperadelles@gmail.com

O dia começa gritando com você, esbravejando que nada está em ordem. Daí você tenta equilibrar a vida, mas não vence. Enquanto prepara mil refeições e cuida da casa, as (ou a) crianças correm pela casa bagunçando tudo aquilo que você acabou de arrumar. A hora de dar início ao trabalho vai se aproximando e não, você não está pronta. Naturalmente não está. Como haveria de estar? Não há planejamento que consiga se transformar em êxito em meio a esse furacão. 

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Mulher-mãe, eu sei que não está fácil sobreviver à tríade trabalho-casa-maternidade. Juro, eu sei. Sinto na pele. Tenho certeza que, assim como eu, por vezes você se sente sem forças. Possivelmente você está. A pandemia e o distanciamento social pegaram a todos de sobressalto, mas a alguns atingiu como uma flecha no peito. E, com flechas cravadas em nossas carnes estamos nós, as mães. Sugadas por essa atual e intensa realidade onde as crianças permanecem fora da escola, o trabalho adentrou à casa, e a casa… bom, essa não dá sossego. É isso, cá estamos: correndo e sangrando, tentando não surtar, mantendo como meta a entrega plena de dignidade, educação e afeto aos nossos filhos.

Li dia desses que a produção de artigos científicos produzidos por mulheres diminuiu em 50% desde que o Coronavírus veio nos fazer companhia. Tenho certeza que isso não é novidade pra nenhuma de nós. A tripla jornada de trabalho está a nos estapear a face como nunca. 

Em coro o mundo diz: fique em casa. Ficamos! Por determinação, por credo, e por falta de alternativa. Nos mantemos em casa com as crias, com a bagunça, com a rotina ensandecida, com vida profissional e com o relacionamento. Só não estamos em casa com nós mesmas. Pelo menos quase nunca. Mínimo tempo sobra para que possamos ter breve respiro, considerando que é impossível varrer a areia da praia.

Sabe, é que não dá mesmo pra dar conta de tudo. E quer saber mais? Tá tudo bem! Não somos super heroínas, não somos guerreiras, somos só mulheres comuns que estão extremamente sobrecarregadas. Seres que se cansam, sofrem, mas seguem. Eu não sei você, mas eu mal tenho tempo pra reclamar. Chorar é artigo de luxo.

Por falar nisso, dia desses eu chorei. Chorei junto com a minha filha. Ela chorava e eu não sabia o porquê, fui acolher as dores dela e bati de frente com as minhas. À beira da cama, choramos juntas. Juntas e profundamente, com tudo que tínhamos direito: lágrimas pesadas, soluços, uivos. Eu chorei por que a maternidade é pesada, é ofício sem folga, porque sou mulher, o futuro é incerto e eu estou exausta de tanta luta. Ela chorou por que é difícil ser criança em um universo novo, tudo o que se sente é inédito, dói não entender o mundo e seu funcionamento. 

Mas, ela é tão forte, mesmo tão pequenina, que se acalmou antes de mim. Me deu um olhar tão seguro, que me embalou, e eu fui me contendo. Aceitei com afeto meu desespero.e me acalmei também.

Naquele dia eu chorei e foi um dia especial. 

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