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Opinião24/08/2020 | 07h00Atualizada em 24/08/2020 | 07h00

Sandra Cecília Peradelles: estupradas e silenciadas, seguem

Uma pessoa estuprada tem a sexualidade dolorosamente alterada até o fim de seus dias

Sandra Cecília Peradelles
Sandra Cecília Peradelles

comunicaperadelles@gmail.com

Ninguém supera uma violência sexual sofrida. Aprende-se a conviver com ela, faz-se do monstro de maior temor, companhia. É que superação envolve perdão e compreensão da atitude do seu algoz, o que é impossível de acontecer diante de tal abuso. 

O estupro é antes de tudo, um roubo. No ato, a vítima perde o controle sobre seu corpo, tem sua dignidade arrancada de si, assim como suas véstias. Junto com as secreções, escorrem a possibilidade de um viver sem trauma. Uma pessoa estuprada tem a sexualidade dolorosamente alterada até o fim de seus dias. 

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A violência sexual é o combo da desumanidade. É a junção da agressão física, moral e psicológica. É o que há de mais brutal no mundo. E essa brutalidade é naturalizada socialmente. Mulheres são assediadas pelas ruas a todo tempo, também impelidas ao sexo dentro dos seus relacionamentos em nome do prazer masculino, dito comumente como instinto. Há uma absurda aceitação dessa sexualidade vil do homem, ao passo que a sexualidade da mulher é compreendida a partir de moralismo e silenciamento.

Tendo tantos casos sabidos e tantos outros ocultos, não há mais como negar a existência da Cultura do Estupro, que aponta comportamentos sutis ou explícitos que silenciam ou relativizam a violência sexual presente em nosso dia a dia. Enfrentamos muitas barreiras quando tentamos debater esse tema. Os homens, principalmente, se sentem ofendidos de primeira, sem ao menos tentar entender que a constatação de que vivemos em uma sociedade que viola sexualmente mulheres e crianças às milhares, diariamente, é o salto para que isso mude. 

Para se ter noção, acredita-se que somente 10% dos casos de abuso sejam registrados pela polícia. É uma realidade: ao denunciar, geralmente, a vítima é descredibilizada, colocada em cheque, questionam suas atitudes, suas roupas. Como se algo justificasse tamanha monstruosidade. 

Nas últimas semanas, o Brasil parou para assistir a lamentável história de uma menina de 10 anos, grávida após ter sido estuprada desde os seis anos por um tio. Um juiz, com razão, encaminhou o aborto. Depois disso, outro julgamento começou. O tribunal do moralismo desumano abriu fogo contra a criança grávida, expondo-a, chamando-a de assassina. Eu nem vou mencionar quem supôs que o sexo foi consentido, tenho asco. O estuprador, antes de se entregar, ainda gravou vídeo dizendo que além dele, outros dois homens da família abusavam da garota. Deus, onde estás? Eu me perguntava, enquanto assistia incrédula, enojada e triste, muito triste. 

Abuso sexual infantil não é novidade. Quase todas as mulheres que conheço sofreram algum tipo de violação enquanto pequenas, muitas, também, na vida adulta. Essa infinidade de vítimas do prazer inescrupuloso do outro está por aí, vivendo suas vidas, carregando bagagens pesadas demais. Seguem estupradas, estigmatizadas. Seguem silenciadas. 

Até quando?

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