Sandra Cecília Peradelles: 100 mil dores, um milhão de lágrimas - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião10/08/2020 | 07h00Atualizada em 10/08/2020 | 07h58

Sandra Cecília Peradelles: 100 mil dores, um milhão de lágrimas

Esse número corresponde a tirar do mapa a população dos sete maiores bairros de Caxias do Sul

Sandra Cecília Peradelles
Sandra Cecília Peradelles

comunicaperadelles@gmail.com

O Brasil contabilizou nesse final de semana mais de 100 mil mortos pelo novo coronavírus. O que aconteceu ao Brasil com relação à pandemia foi uma tragédia anunciada. A ONU falou, a mídia noticiou, os cientistas confirmaram. Além do que já foi dito, o que posso dizer eu? Posso dizer que não são números? Não são! Posso dizer que não pode ser tolerável achar normal que tantas vidas foram ceifadas? Não é normal! Posso dizer que nunca, na história do nosso país, tantas pessoas chegaram a óbito pelo mesmo motivo, em tão curto espaço de tempo? Sim, isso é fato. Tudo que poderia ser dito, foi. Você sabe, eu sei. Mas quem ouviu? 

Hoje eu vim aqui pra lamentar, só isso. Vim prestar minhas condolências a cada família que perdeu seus entes amados. Vim chorar pelos meus irmãos e irmãs que da terra partiram cedo demais. Cedo demais, sim. Pra quem ama todo o tempo é pouco pra se dividir presença.

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Foram 100 mil mortos. 100 mil vidas. 100 mil dores. Um milhão de lágrimas.

Esse número corresponde a tirar do mapa a população dos sete maiores bairros de Caxias do Sul. Imagina só: Santa Fé, Santa Catarina, Esplanada, Rio Branco, Centro, Nossa Senhora de Fátima e Planalto dizimados. É como se da população caxiense morresse, simplesmente. Entende a gravidade?

Nesses quatro meses e meio em que a sombra da pandemia cobre nossa realidade, li e ouvi tanta desumanidade, que eu, como criatura humana que sou, prefiro não crer que seja uma representação verdadeira de como o brasileiro pensa. 

“Mas agora tudo é covid”. Não nem tudo é, mas muito tem sido. Seguimos morrendo, primordialmente, de doenças do coração, AVC, complicações respiratórias e acidentes de trânsito, mas somando-se a isso tudo, está ela, a covid-19, levando pra outro plano gente amada pelos seus, sem ao menos lhes dar o direito à reconfortante despedida. 

“Só mata gente velha”. Não é verdade, mas se fosse: é aceitável que nossos avós e avôs, pais e mães, tios e tias, vizinhos, com idade avançada morram? Uma geração se constrói de mãos dadas com a anterior. Sem o passado não existe futuro.

“A covid só mata gente doente”. Se assim fosse, seria bem complicado. Eu, deveras conheço poucas pessoas plenamente saudáveis. E você? Somos seres humanos, fortes no espírito, frágeis na casca. Pessoas com doenças crônicas, se, em tratamento, vivem tanto quanto qualquer um de nós.

Em suma, não há vida que valha mais, ou menos. E se você pensa que sim, talvez a sua existência é que seja secundária para que o mundo siga girando. 

Mas sabe o que dói mesmo? A maior parte da população está perdida dentro do mantra do “vai passar”, andando na corda bamba entre contrair o vírus, correndo risco de morte, ou passar fome. Vivemos uma sub-vida. Lastimável!

Ao ser questionado sobre o número de mortes, recentemente, o presidente da República disse que lamenta, mas temos que seguir a vida. Certo, senhor presidente, mas seguir como? Seguir pra onde? Como superar tudo isso? Sim, a pandemia uma hora vai embora, quem sobreviver, vai seguir, mas em quais condições?  

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