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Opinião28/08/2020 | 14h00Atualizada em 28/08/2020 | 14h00

Pedro Guerra: sopro

Existem sopros que nós gostaríamos de segurar para sempre com a gente, como se pudéssemos retardar o que é natural

Pedro Guerra: sopro Antonio Giacomin/Divulgação
Foto: Antonio Giacomin / Divulgação

Já faz algum tempo que não assisto aos noticiários da televisão. Decidi desligar porque as manchetes não têm sido as melhores, você sabe. E considerando a ideia de que tudo que fazemos na vida parte de uma escolha, decidi seguir um mantra que carrego internamente e tem me ajudado bastante nesses tempos loucos & exaustivos & incertos que estamos vivendo: não consuma o que te consome.

É claro que a falta de acesso à informação nos torna alienados de alguma forma. Tive um claro exemplo disso na última semana, quando estava indicando alguns escritores para uma amiga e sugeri o nome da Mariana Kalil. Lembrei automaticamente lá de 2016, quando saí correndo do meu antigo emprego para cruzar a cidade e conhecer uma das minhas cronistas preferidas pessoalmente. Diferente de qualquer outro lançamento de livro que já participei, naquele dia a Mariana me convidou para sentar ao seu lado e conversamos durante alguns minutos enquanto ela autografava os livros que eu tinha comprado (e carimbava a pata dos seus cachorros na primeira folha).

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Para a minha surpresa, ao procurar mais sobre a Mariana na semana passada, descobri que ela faleceu em março.

Eu odiei aquele instante. Acho até que me odiei.

Quis voltar no tempo, talvez para os minutos anteriores onde aquela notícia não era real. Pensei que, caso eu tivesse permanecido distante desse fato, de alguma forma eu ainda poderia acreditar que o meu caminho cruzaria com o da Mariana em algum momento, e que também eu leria muito mais do que ela teria para contar – com um humor tão próprio que me encantou de primeira.

Mais do que em qualquer outra situação, entendi o que os outros querem dizer quando falam que a vida é um sopro. Pois foi assim mesmo, em um único suspirar, que eu tive que engolir a manchete. E como existem sopros que nós gostaríamos de segurar para sempre com a gente, como se pudéssemos retardar o que é natural...

Neste exato momento, escrevo esse texto com um dos livros da Mariana aberto na minha frente. Estou relendo “Tudo tem uma primeira vez” onde ela conta, sempre bem humorada, as estreias que fazemos ao longo da vida – da primeira batida de carro até a vez que ela desfilou na Marquês de Sapucaí. Logo nas primeiras páginas, ela diz: “Acredito que viver só tem sentido quando temos histórias para contar. Acredito que, para ter histórias para contar, basta dar atenção ao que se vive”. E é exatamente sobre isso: viver o hoje. Mais ainda, viver o agora. O sopro que estamos botando para fora neste momento – afinal, nenhum de nós tem certeza de nada, muito menos de quantos sopros ainda temos pela frente.

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