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Opinião14/08/2020 | 20h31Atualizada em 14/08/2020 | 20h31

Pedro Guerra: carta ao meu pai

Prefiro dizer que você é o camaleão mais curioso e tão raro que certamente estaria em extinção

Pedro Guerra: carta ao meu pai Antonio Giacomin/
Foto: Antonio Giacomin

Desculpa, pai. Não fiz o que você me pediu para fazer há alguns dias.

Sei que você disse que era para esperar quando você pudesse vir aqui em casa para tirar os parafusos do suporte da cortina, mas acabei fazendo isso sozinho. Você me alertou que era melhor esperar você fazer para que não ficasse alguma marca (ou quem sabe eu não usasse a chave de fenda errada), mas não aguentei e dei um jeito por conta própria.

Eu bem que poderia descontar toda a culpa disso na ansiedade, mas desta vez eu parei para refletir e entendi que a raiz da situação era outra. Até porque, tem um momento em que acaba se tornando um pouco cômodo apenas culpar a ansiedade sem tentar realmente visualizar o todo para cavar e encontrar uma justificativa mais condizente.

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Pai, atropelei o teu pedido porque eu achei que conseguia. E, olha só, eu realmente consegui. E eu sei que você diria que nunca duvidou de mim e de como eu poderia dar um jeito em qualquer que fosse o problema sem precisar pedir ajuda, mas eu quero que saiba que a decisão de encarar o “desafio” foi para me testar mesmo. Eu bem que gostaria de negar para sempre que um dia não poderei mais te ligar para resolver os meus problemas, mas sei que se esse momento acontecer, pelo menos vou poder lembrar: usei a chave de fenda correta.

Logo eu, que até pouco tempo mal sabia o que era um parafuso, um prego, como usar uma furadeira ou calibrar um pneu. Mas pouco a pouco eu quis tentar tudo isso sozinho, e mesmo que desse errado e por descuido eu deixasse uma marca na parede, para sempre eu olharia para ela e lembraria de ti, pai. Porque foi tu quem sempre deu um jeito. Para tudo.

Eu poderia cair no clichê de dizer que você é o meu super-herói. Entretanto, prefiro dizer que você é o camaleão mais curioso e tão raro que certamente estaria em extinção (ao menos, no mundo dos Pais Camaleões que acabei de inventar).

Você sempre se adaptou, pai. Aos meus sonhos loucos, aos meus pedidos de socorro inesperados, aos meus telefonemas pedindo uma carona até o plantão quando passava mal, aos quadros estranhos que eu quis pendurar na parede e você horas depois já estava lá – com a furadeira, os parafusos e a chave de fenda correta (você até me deu um estojo com meia dúzia de ferramentas e eu pensei: “pra que?” – e hoje eu entendo).

Lembrei de um texto que dá nome ao livro da Ruth Manus que li uma vez. “Pegue lá uma chave de fenda” reúne crônicas sobre o amor, e justamente esta fala sobre as vezes em que os nossos pais nos pedem para alcançar a chave de fenda, sendo que nem sempre nós sabemos o que é uma exatamente. Mas chega um momento da vida em que ela nos exige de um jeito ou outro: aprenda. Agora. Um dia você vai precisar saber.

Então obrigado, pai. Obrigado por todas as tuas faces, teus braços gigantescos e teu coração maleável e sensível. Talvez eu não esteja te falando tudo isso pessoalmente por dois motivos: 1) lembra da música gaúcha que a gente escutava junto quando eu era criança? “E se não for por escrito eu nem me animo a dizer”... Pois é, você mal sabia que eu seria assim. 2) Tive medo de que você pensasse que agora que eu consegui dar um jeito na cortina da sala sozinho, eu não fosse precisar de mais nenhuma outra ajuda sua. Mas não se preocupe, porque ainda estou com uma lâmpada queimada e um puxador que preciso fixar na parede. Então, quando der, você pode vir aqui em casa? Prometo te passar a chave de fenda certa dessa vez.

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