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Opinião21/08/2020 | 07h00Atualizada em 21/08/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: plano-sequência

Será que, findo esse dramático período, nos tornaremos melhores ou agiremos como se nada tivesse acontecido?

A tentação de perguntar é grande: será que, findo esse dramático período, nos tornaremos melhores ou agiremos como se nada tivesse acontecido? Muitos têm a percepção de que aprenderemos com a dor e isso provocará uma poderosa reflexão sobre os caminhos da humanidade. Infelizmente, apesar de respeitar quem se inclina a ver o lado bom, sinto-me desprovido dessa certeza apaziguante. Em recente entrevista, o escritor Ruy Castro disse que, passada a gripe espanhola de 1918, as pessoas se atiraram como loucas para aproveitar o que viesse. No carnaval do Rio, o desregramento foi quase uma ordem, sem pensar nas consequências. Os foliões indagavam, entre si: será que estarei vivo no ano que vem? Então, é conveniente agir como se não houvesse dia seguinte. Raramente nos distinguimos pela originalidade, e é bem provável que conduta equivalente se repetirá, mudando somente as personagens. Somos assim: animais que se orgulham da razão, mas que obedecem mais aos instintos.

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Ao pensar sobre isso, faço um paralelo com uma técnica admirada pelo cinema: o plano-sequência. O diretor começa a filmar sem cortes e segue mapeando paisagens e pessoas até completar a cena. Olhando em retrospectiva esses últimos cinco meses, consigo entender com mais clareza o assombro que tomou conta de cada um de nós. Mas não tenho a menor ideia de quando ouviremos a palavra “corta”. Continuamos à deriva, embora lentamente o nevoeiro vá se dissipando e, aqui e ali, vislumbramos novamente a existência com a qual estávamos acostumados. O fato é que essa pandemia evidenciou o luminoso e o obscuro de cada um. A generosidade com vizinhos e necessitados surpreendeu. Por outro lado, quantos aproveitaram para despir a máscara do bom caráter. A esse grupo pertencem todos aqueles que solicitaram o abono do governo sem dele carecer, por exemplo. E foram milhares, milhões. De onde se conclui que é prudente evitar afirmações categóricas, extraindo-as só depois das conclusões serem obtidas na prática. Os autoproclamados bonzinhos precisam ser testados.

Isso revela o que deveria ser óbvio: convivem dentro de nós anjos e demônios. Nosso trabalho é domá-los, dando espaço àqueles que desejamos sejam nossos guias. Colocar uma etiqueta nas costas de cada um apenas ajuda a estereotipar o que pertence à ordem do individual. Particularmente, acredito que haverá escassas alterações quando voltarmos a “respirar” normalmente. Literal e metaforicamente falando. Somos seres assombrados pelo esquecimento. O que é causa de vida e morte hoje pode nos deixar indiferentes amanhã. Haja determinação para vergar nossos defeitos. Situações excepcionais costumam reforçá-los. Um pouco na linha do “salve-se quem puder”. Como? Você não faz parte desse grupo? Parabéns. Que tal imaginar o que faria na iminência do fim de tudo? A realidade é sempre mais complexa do que a ficção.

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