Gilmar Marcílio: narrativas individuais - Cultura e Tendência - Pioneiro

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Opinião07/08/2020 | 07h00Atualizada em 07/08/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: narrativas individuais

 Nossas narrativas estão se tornando profundamente solitárias

A euforia é quase unânime: no futuro, trabalharemos em casa. Nada de perder horas no trânsito e submeter-se ao controle rígido de entrada e saída das empresas. Os méritos serão avaliados pela produtividade, pouco contará a soma do tempo passado no local. Liberdade, enfim! Vale lembrar: para a esmagadora maioria, a atividade profissional desempenhada é uma prisão da qual se festeja antecipadamente o dia em que será desnecessário a ela se subjugar. Os grandes entusiastas dessa nova modalidade pertencem à categoria dos que passarão os dois turnos (ou apenas um, ideal sonhado) em frente a uma tela de computador. Mas é importante continuar tendo em mente que não se constituirá em privilégio para todos: produtos precisam ser extraídos da natureza, manufaturados, transportados até chegarem ao seu destino final: o lar agora louvado à exaustão. Estaremos vendo só o lado positivo dessa equação? E ele realmente existe. Pais comemoram, depois dos primeiros meses da modalidade, uma convivência maior com seus filhos e até a boa surpresa de dividir as tarefas domésticas. Se você faz parte desse último grupo, mas posta no Instagram cada vez que pega um aspirador ou lava um prato, esse mérito é discutível. Portanto, parece cedo para celebrar. Explico. 

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 Nossas narrativas estão se tornando profundamente solitárias. O desafio de se confrontar com o outro tende a desaparecer. Consequência natural: os embates e as dúvidas serão substituídos pelas perigosas certezas. Particularmente, considero a melhor parte da minha profissão o encontro com colegas que se transformaram em amigos da vida inteira. Mesmo aqueles com quem divido poucas afinidades e perspectivas em comum, sinalizam o saudável desafio de incluir o diferente e promover um pensamento em busca da alteridade. Pense comigo: crianças e adolescentes preferem ficar trancados em seus quartos. O smartphone é o sonho máximo de felicidade. Perdoem o uso de uma expressão tão dura, mas os vejo como seres comumente incapazes de entabular uma conversa que vá além de banalidades. Exagero? Corrijam-me, se for o caso. É inegável o quanto a interação com os demais traz benefícios. O excesso de conforto e estabilidade amolece o caráter. Precisamos de segurança e uma residência representa o ideal de proteção. Mas viver envolto em algodão nos torna criaturas inaptas a enfrentar os reveses lá fora.  

 Reservarei meu “hip urra!” para mais adiante, se convocado a opinar sobre esse tema. Por enquanto, seguirei contente com o modelo que me empurra para longe do meu espaço doméstico. O valor não está em usufruir permanentemente de algo, mas a ele voltar depois de necessária ausência. Conceito que inclui objetos e pessoas. Alguns, inclusive, chamam isso de amor. 

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