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Opinião28/08/2020 | 07h00Atualizada em 28/08/2020 | 07h00

Gilmar Marcílio: não sei

Dou dois passos e constato: uma existência inteira não me tornará especialista em nada

Sou habitado pela certeza do pouco que sei. Recorro a livros de filosofia e faço profundas reflexões para me dar conta do meu real tamanho. Dou dois passos e constato: uma existência inteira não me tornará especialista em nada. Garimpo todo tipo de conteúdo com entusiasmo, mas raramente vou além das noções básicas, sem solapar a ignorância. Em um universo eternamente mutável, descubro: aquilo que orgulhosamente chamo de conhecimento pode se tornar ultrapassado da noite para o dia. Só se me agarrar a precárias crenças e vender aos demais a ideia de ser um expert, quando, na verdade, reconheço-me um aprendiz curioso. Esse, sim, talvez seja um mérito, o de interessar-se renovadamente pelas pessoas e por encontrar algum tipo de entendimento, visando diminuir a sensação de que múltiplas coisas me escapam. Leio como se fosse um lobo faminto em busca de alimento. O desconhecido é rico material, possibilitando avaliar meus estados emocionais. Tento ir mais longe: essa percepção me levará a entender o fato de ser só um ponto de referência, afastado da tentação de julgar os próximos a mim.

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O ganho adicional de ir vivendo dessa maneira será, provavelmente, uma velhice de garimpagem, auscultando, conhecendo novos territórios. Porque esse desejo extrapola o esgotamento das forças físicas. Ele se amplia, apesar do seu consumo. E há muito a nos instigar. Passamos anos debruçados sobre um objeto de estudo. Demoramos outros para compreender: tudo o mais é fugidio e, na melhor das hipóteses, raspamos sua primeira camada. Até o clássico “convivo contigo a tanto tempo, te conheço como a palma da minha mão” revela mais um propósito, ao invés de uma verdade. E se há algo do qual não tenho dúvida é de que essa constatação se acentuará para todo o sempre. E é uma felicidade, a recompensa natural por continuar apaixonado pela vida. Olho ao meu entorno com a impressão de uma primeira vez, como se o natural, o óbvio até, pertencesse à categoria do assombroso. Vou espiando do lado de fora, esquadrinhando um terreno arável, pois as tarefas (os plantios) jamais terminarão. Em alguns, pode gerar cansaço. Comigo, ao contrário, há o reabastecimento constante do impulso de me manter afastado das predileções individuais, fazendo-me pousar em terra estrangeira.

Isso se assemelha mais a uma batalha, distante do tão sonhado descanso. Pois que assim seja, nosso destino parece fugir da conformidade, do apascentamento. Reforçando esse juízo, lembro as palavras definitivas de Brás Cubras, personagem imortal de Machado de Assis: “Vida sem luta é um mar morto no centro do organismo universal.” Às armas, então.

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