André Costantin: Panem et Deum - Cultura e Tendência - Pioneiro

Versão mobile

 
 

Opinião20/08/2020 | 07h00Atualizada em 20/08/2020 | 08h35

André Costantin: Panem et Deum

Acho que o Panem et Deum - mais que o pão e circo - seja a alegoria possível e atual da Terra Brasilis

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Desculpa aí pelo latim vulgar e vira-lata, mastigado ao google (embora um amigo de pregressa vida monástica não desautorize tal grafia para “pão e deus”). Vão mal também os trocadilhos inaugurais desta crônica, inclusa a alusão a panem et circenses, o velho clichê do pão e circo.

É a fórmula imediata que usamos para ilustrar as quadras históricas em que os monarcas, tiranos ou presidentes, de qualquer estatura, domesticam a plebe com a clássica receita de sacos de farinha e diversão popular, desde a antiga Roma ao circus maximus do Maracanã – palco mais de nossas tragédias que sucessos.

Leia mais
André Costantin: antes da chuva
André Costantin: osso grande

O Brasil de agora mostra que continua sendo um craque mundial dessa arte – peito estufado na camisa canarinho, pistola na cintura, pés enfiados em calças camufladas e coturnos, algum quepe na cabeça. E, completando o figurino, uma bíblia na mão. Belo retrato.

Pois, vejam: mesmo sem querer, o chefe da República revela espasmos galináceos de prazer em nova onda de popularidade. Até deixou de falar em golpe, entre perdigotos e pencas de generais a tiracolo. Isso deve-se em boa parte ao auxílio emergencial que ele mesmo julgava demais: os tais R$ 600,00 – sacados por brasileiros necessitados e também por ricos carentes do Estado.

Batemos nos 110 mil mortos. Em nossa curiosa ordem e progresso, as pessoas já nem sabem se as máscaras são feitas para usar na boca e nariz ou arriadas no queixo, para então fumar e tagarelar pelas calçadas, tamanha a nossa confusão mental e social. E o ibope da triste figura sobe. Talvez ele seja, de fato, um Messias. Dos submundos do exército e da política, ele enfim emergiu para nos mostrar, no espelho.

Somos um fenômeno. Somos crentes por todos os costados. Dos orixás aos santos católicos, bispos, pastores evangélicos de garagens ou templos monumentais. Uma fatia significativa de brasileiros submissos aos pregadores de tais forças e dogmas vai sustentando essa barbaridade nacionalista.

Por lei – e por Deus! – presidentes deveriam jurar ser ateus, convictos e praticantes. Olhem o Uruguai, que vai nos dando de rédeas nessa pandemia: por lá não há feriados religiosos – strictu sensu. Outra ética social, outra história. Aqui, é mais cômodo chorar nossas mágoas às Senhoras de Aparecida, Caravaggio e outras virgens, já cansadas.

Por isso, acho que o Panem et Deum – mais que o pão e circo – seja a alegoria possível e atual da Terra Brasilis. A piada e o circo já estão dados, nos palácios. Deus, temos de sobra. Faltava só umas migalhas a mais de pão.

Leia também
Fotógrafo cria projeto para que casais relembrem a emoção do dia do casamento
Andrei Andrade: o que faremos do que a pandemia fez conosco?
Pedagoga de Caxias cria kit de brincadeiras divertidas e instrutivas para crianças

 
 
 

Veja também

 
Pioneiro
Busca
clicRBS
Nova busca - outros