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Opinião27/08/2020 | 07h00Atualizada em 27/08/2020 | 07h00

André Costantin: o primeiro homem

Aquele primeiro homem que a vida nos faz esquecer, mas que rege cada um de nós, ancorado na nossa infância

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

“Todo homem estará onde esteve a sua infância”. Esta frase vive em mim, há muitos anos. Mas já não tenho a certeza de que a li, tal e qual, no livro O primeiro homem, de Albert Camus – narrativa autobiográfica, inacabada, cujos cadernos e anotações foram encontrados entre os objetos do escritor no acidente de automóvel que provocou a sua morte em 1960.

O primeiro homem, livro menos conhecido que os clássicos O estrangeiro (1942) e A peste (1947), repousava na velha cristaleira da sala. Quando eu o li, há vinte anos, talvez, era eu então um outro homem. Nestas semanas da pandemia e transe nacional, entre profundos devaneios existenciais, aos quais estão sujeitos tipos como eu, resgatei o livro do sono profundo e o atravessei entre outras releituras dispersas, emocionais, antes de dormir.

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O livro é um delicado memorial da infância do escritor. Nele conhecemos o menino Jacques (o próprio Camus), na Argélia, filho de colonos franceses despejados do outro lado do Mediterrâneo. É a fantástica travessia da memória de Camus, indo recuperar cada imagem e frêmito da infância pobre, no encontro – e confronto – das culturas árabe e europeia. Da noite em que foi mandado ao galinheiro para escolher e pegar a galinha a ser decapitada pela avó, à busca da identidade do pai em um cemitério de combatentes na Europa, Camus tece minuciosamente o homem fundador que nele viveu. Aquele primeiro homem que a vida nos faz esquecer, mas que rege cada um de nós, ancorado na nossa infância.

Camus tinha a herança dos “pés-negros”, gentes da França que iam viver e morrer nas terras do norte da África. Eram, também neste sentido, os primeiros homens de uma civilização nascente, crioula, onde pulsam o vigor, o brilho e o desespero do humano – tão bem fotografados por Camus nesse romance-testamento. Junto aos manuscritos do livro, foram encontrados rascunhos e esboços. Cada nota nos convida a reinterpretar a nossa infância, relicário onde podemos nos redimir, em nossas dores e luzes. Que livro escreveríamos, desnudando o primeiro homem que fomos? Que biografia terá um país que nega e destrói a infância de seus filhos?

Quanto à frase que inicia esta crônica, não a reencontrei nessa nova leitura do livro. Se a inventei, terei prestado minha homenagem à obra: quando o autor e o leitor se encontram no meio do caminho, construindo uma outra narrativa, pactuada, reinventada, como notou tão bem outro francês fascinante – com quem adoro dormir –, Roland Barthes, em O prazer do texto.

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