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Opinião13/08/2020 | 07h00Atualizada em 13/08/2020 | 07h00

André Costantin: antes da chuva

Você dormiu aninhada no cobertor da Aurora, no chão da sala; acordou exatamente igual, sem se mover

André Costantin
André Costantin

andre@transe.com.br

Hoje de manhã você murmurou, tão serena e quieta, que iria morrer. O vento morno deste agosto e o aplicativo do clima anunciam que amanhã voltam a chuva e o frio, desde a Antártida ou dos Andes. Pois, à noite, você dormiu aninhada no cobertor da Aurora, no chão da sala; acordou exatamente igual, sem se mover. Por isso, entendi.

Há ocasiões na vida quando, por perdas ou paixões, o peito arde, rasga. Um talho. Não é força de linguagem. Dá para sentir os metais abrindo a carcaça e ver o coração galopando no sangue. Então, já não sei se o cavalo louco vai aguentar a travessia do rio, a viagem no campo. Ou apenas cruzar o asfalto da Protásio Alves na fervura de 40 graus de Porto Alegre, como sucedeu certa vez, há bem vinte anos passados. Nunca esqueci.

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Vinte anos! Vou sendo mais memória que sonhos. A véspera da nossa despedida foi o dia dos pais, domingo. Ficamos no terreno, o dia todo. Você ligada ao cateter do soro, enquanto eu fazia o pequeno ritual do fogo no chão, a carne, o sal. As meninas em volta: Clarice, no sofá contigo, montava um quebra-cabeças de Star Wars; Aurora fazia preparos nos mil potes da sua mesa alquímica, mais laboratório que cozinha – terra, folhas, conchas. Veio o entardecer; com ele, teu silêncio, teus sinais.

Hoje será o último dia desse sol. Você está novamente no velho sofá, debaixo do pinheiro. Nome, Lua. Pelagem noturna. Eu tento trabalhar ao computador. Vou para fora. Depois que a outra gata velha partiu, você parou de abrir as portas da casa. Aquela manobra mágica de pular nas maçanetas e dar um jogo de corpo. Gesto humano como quando descia a escada de madeira do sótão, nas madrugadas, com passos de gente. Era até assustador, Lua.

E aquela vez: bem aqui, durante uma festa, você foi tirar satisfação de um cão que entrara pelo portão entreaberto, porque os nossos vira-latas não sabiam que atitude tomar. Só um tapa de unhas e pronto! Você era a guarda e o filtro dos sonhos da casa. Fica aqui. Vou recolher os potes de Aurora, a lona estendida sobre nós, a mesa improvisada. Vai chover. Dobro as cadeiras de praia, pesam toneladas, como nas despedidas do mar do Campeche.

Este é o nosso pátio. Foram 16 anos? – 13 ou 20, nem sei. O tempo é das fêmeas. Foi uma vida. Hoje termina a lua cheia; entra a minguante. Cai a luz. Ficará a portinhola na porta de casa, talvez fechada, sempre. A mulher companheira – a quem você demorou aceitar, mas tanto amou – tudo pressente; sai para comprar pão. Agora podemos, grudados, aqui, morrer juntos.

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